Melhores dias Viro

GISELDA LAPORTA NICOLELIS

Ilustraes
ROGRIO SOUD
2 edio - 2003
Editora
Saraiva
Copyright (c) Giselda Laporta Nicolelis, 2002
Editor. ROGRIO GASTALDO
Assistente editorial: ELAINE CRISTINA DEL NERO
Secretria editorial: ROSILAINE REIS DA SILVA
Suplemento de trabalho: MRCIA GARCIA
Coordenao de reviso: LIVIA MARIA GIORGIO
Edio de arte: NAIR DE MEDEIROS BARBOSA
Superviso de arte: VAGNER CASTRO DOS SANTOS
Finalizao de capa: ANTONIO ROBERTO BRESSAN
Diagramao: ROBSON LUIZ MEREU
Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP)
(Cmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Nicolelis, Giselda Laporta
Melhores dias viro / Giselda Laporta Nicolelis; ilustraes Rogrio Soud. - 2. ed. - So Paulo: Saraiva, 2003. - (Jabuti)
Bibliografia.
ISBN 85-02-03918-0 (aluno)
ISBN 85-02-03919-9 (professor)
1. Literatura infanto-juvenil I. Soud, Rogrio. II. Ttulo. III. Srie.
02-2069                                                                          CDD-028.5
ndices para catlogo sistemtico:
1. Literatura infanto-juvenil 028.5
2. Literatura juvenil 028.5
Todos os direitos reservados  Editora Saraiva
Meu nome  Lenilson e tenho 21 anos. Quando ainda morava com a me, ela festejava meu aniversrio, fazia bolo, essas coisas. Agora, s vezes, at esqueo o dia, 
ah,  13 de agosto. Vai ver nasci numa sexta-feira, porque, por muito tempo, eu tive azar.
Foi legal conhecer voc, mano; mais lega! Ainda saber que vai escrever a minha histria. Quero contar tudo o que eu passei na vida. Quem sabe, sirva pra abrir os 
olhos de outros como eu.
A minha vida  um troo complicado. Tenho 21 anos, mas muito pra contar, mano... Garanto que nem vai acreditar.
No  papo, no, tem coisa mesmo de arrepiar. Quando a gente sai muito cedo de casa, cai no mundo, a barra pesa... No tenho vergonha de dizer, a minha casa, at 
quatro anos atrs, foi a rua; tudo o que eu sabia aprendi com os pivetes como eu. s vezes saa tapa, gritaria, mas no fim a gente se entendia, tipo famlia mesmo.
No nasci na rua, no, tinha casa, pai e me. Quer dizer, me, porque o pai sumiu eu ainda era pequeno, nem me lembro dele direito. S o retrato meio desbotado que 
a me de vez em quando mostrava: - Este  o teu pai, Lenilson.
Homem mirrado, feio, sorrindo com pouco dente. A me dizia que ele bebia muito, vivia no botequim da esquina, torrando a grana inteira de peo de obra. Um dia sumiu, 
no deixou nem bilhete. S um recado com a vizinha de barraco:
- Diz pra Linda que vou embora e no volto mais...
Cinco filhos. Eu era o mais novo, o caula l da casa. A me, diarista, com o tempo ps todos pra jambrar... Crescia um pouco, j pegava no batente.
Na verdade me criei sozinho l na maloca. Muita boca pra comer, aluguel do barraco, sacom, no tinha essas frescuras de ficar pajeando bacuri. Uma vizinha garantia 
um prato de comida, a dona Maria, com mais filhos ainda que a me, uns 9 ou dez, por a...
Logo cedinho, a me saa com a gurizada...
A Lucilene, a mais velha, arrumou emprego numa avcola, foi limpar galinha... Tinha uma birra danada do emprego, dizia que aquele cheiro de galinha grudava na roupa, 
nas mos, no cabelo, um saco. E o dono da avcola, o seu Takashi, estava sempre na cola dela, exigindo mais trabalho.
Depois vinha o Lindomar, a cara do pai. A me nem podia olhar direito pra ele que se lembrava do safado.
O Lindomar deu sorte, foi trabalhar numa sorveteria. Logo no primeiro dia de trabalho tomou tanto sorvete que ficou dias com dor de garganta, perdeu a voz e quase 
perde o emprego. Levou uns tapas da me, ficou at de orelha vermelha.
A Lindalva, a me colocou no supermercado pra carregar embrulho de madame. S tinha menino carregador, mas a me insistiu tanto que contrataram a Lindalva. Uma ou 
outra madame dava gorjeta boa; a maioria era "mo de samambaia", soltava uns trocos mixurucas que no garantiam nem a conduo. Dia de chuva, ento, a coitada ficava 
toda molhada, nem tinha capa de plstico pra usar. Pegava resfriado bravo que a me curava com ch de limo e aspirina.
Depois da Lindalva vinha o Ludenir. Esse foi trabalhar de ajudante de jardineiro do seu Francisco, vizinho nosso. Ele precisava de um garoto pra pegar no pesado: 
carregar as ferramentas, cortar grama, tirar entulho. Coitado do Ludenir. Logo na primeira semana, encheu a mo de bolha. A me consolou:
- Com o tempo, cria calo.
A me teve 4 filhos seguidos... depois deu uma parada. Acho que foi no tempo em que o pai sumiu pela primeira vez. Depois ele voltou e nasci eu. A me dizia que 
ele s servia pra fazer filho e bater nela, acho que deu at graas a Deus quando ele sumiu de vez.
Meus irmos  que pagaram o pato... Nenhum deles tinha carteira assinada, trabalhavam pra burro e ganhavam mixaria. E pior: tiveram at que largar a escola pra poder 
trabalhar.
Sobrava eu, n? Muito pequeno ainda, ningum queria. Ento fiquei por conta da dona Maria, a vizinha. A me dava um dinheiro pra ela no fim do ms para o prato de 
comida. E eu que me virasse.
Ah, esta cicatriz no brao? Faz tempo, cara, foi quando me queimei no fogo. Deu fome, fui esquentar um resto de comida. A desgraada da panela virou no meu brao. 
S de noite, quando a me chegou, me levou na farmcia e puseram pomada. Doeu pra burro, deixou marca feia, ligo no, parece tatuagem...
Mas como eu ia dizendo... todo dia, nem bem amanhecia, a me saa com a meninada, s voltava de noite. A conduo vinha cheia, chegava todo mundo meio estropiado, 
e a me ainda ia fazer janta, porque meus irmos levavam marmita pra comer no servio, patro nenhum dava prato de comida, todos uns unhas-de-fome.
- O que voc fez o dia inteiro? - perguntava a me.
- Andei por a - respondia.
- Veja l o que voc apronta, moleque, j tenho problema demais, no se meta com malandro!
Eu ficava na minha... no tinha nada pra fazer mesmo. A me no conseguia vaga em escola perto de casa, s muito longe; gastar conduo no dava, fazia falta pra 
comida. Nem meus irmos estudavam mais por causa do trabalho.
Sem escola, sem me por perto, logo cedo eu ganhava a rua. Conhecia todo mundo na maloca. Quando o sol ficava mais quente, vinha um mau cheiro l do crrego, mas 
a crianada nem a; metia os ps naquela gua, junto com os vira-latas - a gente brincava de pega-pega, de atirar gua no outro. Depois ia todo mundo ver televiso.
O que no faltava na favela era TV. A de casa tinha quebrado fazia um tempo, mas cad dinheiro pra consertar? Ento eu via na casa da dona Maria.
Cada programa mais bonito! O melhor mesmo eram os anncios de comida, doce, chocolate. Ficava vendo aquela gente bacana comendo cada sanduche que me dava at gua 
na boca... Vontade de entrar dentro da televiso e comer junto. Depois dava raiva, porque a gororoba da dona Maria no tinha gosto de nada; como ela no tinha dente, 
ento achava que era todo mundo igual. Fazia um feijo de caldo ralo e quase sem tempero, o arroz feito papa.
Eu pensava: algum dia vou ter dinheiro pra comer o que quiser... o que esses bacanas a na televiso esto comendo: sanduche, doce, chocolate - a vida no podia 
ser sempre uma droga, podia?
No estou me queixando, entendeu, no quero pena.  s pra voc me conhecer melhor. Eu era movido a raiva o tempo todo. Se ponha no meu lugar: sem pai pra dar conselho, 
a me sempre longe, trabalhando, largado por a... Eu tinha uma inveja desgraada de garoto que esperava o pai voltar do servio, l no ponto de buzo, que ia jogar 
pelada no campinho, aos domingos, junto com o pai.
Eu me recusava a ser um filho abandonado feito chinelo velho. Ento, pra me vingar, eu dizia pra todo mundo que o pai tinha morrido. , eu dizia isso mesmo, dava 
at o nome do cemitrio onde ele estava enterrado. Quem conhecia o velho no acreditava e ria... mas sempre aparecia um otrio e a histria colava. Me sentia to 
bem dizendo aquilo, me dava um consolo to grande! Pai morto  mais fcil de perdoar.
Foi nessa poca que eu conheci a gangue do Zelo. Era um garoto alto, branquela, de cabelo tingido de loiro, uma pea. Tinha mais de dez moleques na gangue que obedeciam 
o chefe sem piscar.
Ele tambm morava na maloca. A me dele, empregada de uns bacanas de bairro chique, dormia no emprego e s voltava no fim da semana. Gozado que o Zelo andava sempre 
bem vestido: jaqueta de couro e boot de grife, argolas de ouro nas orelhas e um anelo de rubi no dedo; parecia at doutor.
Um dia, eu ia passando, o Zelo me chamou:
- Vem c, pivete, quero um lero contigo.
Fui, s de curiosidade. O Zelo era diferente. Garanto que ele comia todos aqueles sanduches e doces que apareciam na televiso. Quem sabe no sobrava um pouco 
pra mim?
- Quer entrar pra minha gangue? - perguntou o Zelo e sorriu. Depois deu uma tragada no cigarro, deixando um cheiro adocicado...  Eu estava perto, at enjoei.
- Entro, u - eu disse, s por dizer.
- Voc parece esperto, pivete - continuou o Zelo. - Se for mesmo esperto, tenho uns servicinhos... S vai depender de voc.
O resto da gangue riu s gargalhadas, um deles ainda falou:
- Essa cria de gente, a? Tempo perdido, Zelo.
- Cala a boca! - gritou o Zelo. - Quem escolhe as crias sou eu. Esse leva jeito.
- O que  que eu tenho de fazer? - perguntei meio ressabiado. Se a me soubesse que eu estava falando com o Zelo, com a fama que ele tinha, ia me arrancar as orelhas.
- Uns servicinhos, j disse. Coisa pouca no comeo. Depois vamos ver.
Os outros s me olhavam e riam. Riam de rolar com a minha cara. E a fumaa enjoativa do cigarro do Zelo me deixava cada vez mais tonto.
- Pois eu topo! - disse. - Topo tudo. Vou mostrar a pra corriola quem  a cria aqui.
- Assim que eu gosto - apoiou o Zelo. - Primeiro voc vai de laranja, pra pegar prtica. Depois arma um pulo maior.
- Laranja, que  isso? - estranhei.
- Esse t mais verde que limo - caoou Nego Mano, um cara dois por trs, que era assim um tipo de segurana do Zelo. O Zelo era magro e fino, e o Nego Mano, quadrado. 
E como um era branquela e o outro negro, a turma apelidou os dois de Caf com Leite, porque onde ia um, estava o outro.
- Laranja de feira  que no  - disfarou o Zelo. - No esquenta que mando recado.
Fiquei morrendo de curiosidade: o que seria ser laranja? Minha nossa, eu ia entrar em enrascada brava. O bando do Zelo tinha uma fama terrvel...
No falei nada com a me, de medo de levar uma surra... Fiquei na minha. Depois tinha chegado um circo no terreno perto da avenida, uma curtio.
Passei dias vendo o pessoal armar aquele circo...
Tinha leo, tigre, urso... um cheiro desgraado nas jaulas, parecia at o cheiro do riacho l da maloca.
Fiquei dando um rol em volta do circo... e at ganhei uns trocados ajudando o pessoal: carregando caixote, enchendo balde d'gua pros elefantes. Fiquei to conhecido 
que at me convidaram pra ir com eles - estavam mesmo precisando de um garoto esperto pra fazer servios midos.
Era uma boa idia, no fosse a me. Ela era muito agarrada com os filhos. Tinha um troo se eu dissesse que ia embora com o circo. Mas que era tentador, ah, isso 
era!
O tempo que o circo ficou por l no desgrudei do pessoal. Ganhei at uma entrada pra matin e fui sozinho, ningum tinha dinheiro pra me acompanhar; precisava aproveitar 
porque o circo s voltaria no ano seguinte.
Pois , estava assistindo o espetculo, numa boa, quando o Rato ps a mo no meu ombro. O Rato era da gangue do Zelo; tinha esse apelido por causa do nariz comprido 
e dos olhos muito pequenos, parecia mesmo um rato.
- O boss mandou te chamar - disse ele, dando um sinal com a cabea.
Olhei pro lado, vi o Zelo e a gangue inteira. Sentados nas cadeiras, sacos de pipoca nas mos. Fui me chegando, meio ressabiado...
- J tenho um servicinho pra voc, cria - anunciou. - Espera que o Rato te procura de novo.
- Que tipo de servio, Zelo? - arrisquei.
- Olha s, a cria  curiosa. - Nego Mano riu, a boca cheia de pipocas.
- Coisa pouca, maneira, esquenta no - disfarou o Zelo, rolando o anel no dedo. - Volta l pra arquibancada, curte o circo.
Voltei pro meu lugar, desconfiado. Que diabo de servio seria esse? Coisa boa no devia ser. E como  que eu ia pular fora agora? J imaginou se Nego Mano me pegasse? 
Virava farofa de Lenilson.
Mas o espetculo estava to bonito que at esqueci o resto. Fiquei curtindo adoidado... Pena que no tinha dinheiro pra comprar pipoca. Pacincia, eu chegava l.
J imaginou se eu fosse embora mesmo com o circo? Virava artista, com certeza. Podia aprender a ser domador como aquele ali na jaula, enfrentando tigres e lees. 
Mas do que eu gostava mesmo, me arrepiava o corpo todo, eram os trapezistas... pulando de um trapzio para o outro, e nem tinha rede embaixo: que loucura, meu!
Se fosse embora com o circo, eu ia querer mesmo  ser trapezista! O mais famoso do mundo!
O espetculo acabou e o povo foi saindo... Ainda vi o Zelo e a gangue indo embora. Me deu at frio na espinha. Eles eram da pesada. Mas sentavam nas cadeiras numeradas 
do circo, no sentavam? E comiam pipoca, no comiam? Quem sabe, com eles, eu melhorava de vida.
Os meus irmos ficaram enciumados porque eu fui ao circo. Me encheram o saco. No tinham dinheiro pra pagar as entradas. Custou eles entenderem que eu trabalhei 
duro, no foi de graa no.
S no falei no convite do pessoal do circo. Do jeito que a me era estourada, era bem capaz de ir l na delegacia denunciar que queriam roubar o filho dela. Eu, 
hein?
Isso que est funcionando a  um gravador, n? T legal, pode gravar o nosso lero numa boa. Preciso mesmo desabafar. Quero contar tudo, direitinho, para que voc 
escreva a histria verdadeira.
Cansei de mentira, cara, de sacanagem. No estou me defendendo, cada um tem a fama que merece. Mas contar a histria dessa maneira, misturando tudo, inventando coisa 
que no existiu, como fizeram... No est certo no.
S um pouco de pacincia que eu chego l. S estou contando desde o comeo porque voc pediu e tambm pra voc entender melhor a minha vida.
Acho que eu devia ter ido embora com aquele circo, sabe, mano. Ia ser muito melhor. Pra mim, pra me, pros meus irmos.
Viajaria pelo mundo, vendo coisa e gente diferente, lidando l com os tigres e os lees da jaula -  mais fcil lidar com bicho que lidar com gente... te garanto, 
mano.
Bicho no tem a maldade que gente tem!
Foi mais ou menos nessa poca que a me arrumou vaga pra mim l na escola pblica; ela fez de tudo e conseguiu. Amanheceu na fila, a coitada. E foi logo avisando:
- Olha, Lenilson, o ano que vem voc vai pra escola...
No gostei nem um pouco, j estava acostumado a me virar sozinho, sem hora nem mando. Ia ter hora certa, lio, xi, que contramo ela tinha me arrumado. Mas com 
a me que eu tenho, a gente no discute: obedece.
No comeo do ano l fui eu pra escola. O gozado  que quando contei pro Zelo, ele deu o maior apoio, eu pensando que ele ia achar ruim, que nada:
- Estuda sim, guri, que nessa gangue  tudo meio analfabeto.  bom que tenha algum mais letrado, sacom, pode pintar coisa fina enquanto a gente perambula...
Achou gozada a palavra? Ah, mano, a gente tem uma gria s nossa, sacou? Quem t por fora dana mesmo.  que a gente costuma dizer que rico passeia e pobre perambula... 
e o delegado bate B.O. de perambulao. Nem perambular sossegado a gente pode.
Mas como eu ia dizendo, o Zelo gostou da idia da escola. Deu a maior fora. E l fui eu. A professora era boa pessoa, se esforava muito. A gente ficava de olho 
mesmo  na merenda, sacou? Ouvido fino no sinal. Com barriga vazia ningum aprende nada.
A merendeira era gente fina, fazia milagre com aquelas panelonas. Um dia, sobrava salsicha e molho, mas cad o po? O jeito era aproveitar junto com o macarro... 
Tinha neguinho reclamando, querendo o velho cachorro-quente.
Eu traava tudo, at o que no tinha gosto de nada; voc j sentiu fome, mano? Fome di. Depois do rango da dona Maria, quem era eu pra desprezar macarro com molho 
de salsicha?
Depois da merenda a coisa melhorava, dava aquele quente gostoso na barriga; por isso a professora deixava os trecos mais complicados pra depois da merenda, no era 
boba nem nada, n?
A escola at que era legal. Eu estava pra l de atrasado, e ainda na primeira srie. Mas na classe tinha guri de toda idade. E muita mina tambm, atrasada no estudo 
porque teve que olhar os irmos menores pra me trabalhar... Ento repetia de ano, porque faltava muito e nem tinha tempo de estudar. A maioria s ficava mesmo no 
batente, sem esperana nenhuma de futuro; no mximo ia ser empregada de madame e olhe l.
L na escola eu fiz amizade com o Chico. 0 Chico era engraado. Era pardo, assim cor de caf-com-leite. Mas o Chico era meio besta, no assumia a cor dele, vivia 
dizendo:
- Negro  voc, eu sou moreno.
No comeo me deu aquela raiva do Chico, tinha vontade de dar uns socos nele pra deixar de ser besta daquele jeito... A gente nasce com a cor que Deus deu, da cor 
do pai, da me, dos irmos da gente.
Depois fui ficando com pena do Chico e nem ligava mais pra o que ele falava. Queria ser moreno, fosse moreno! E o Chico ainda dizia que s ia namorar mina branca, 
porque de escurinha j chegava a me dele - me a gente respeita. Mas andar de brao com mina escura na rua, nem morto! Gozado, o Chico. Acho que ele tinha vergonha 
da cor dele, era racista.
Essa histria de cor  engraada, sabe? Porque o pai  negro e a me, morena-clara, ento cada um de ns, l de casa, saiu de uma cor: tem assim negro como eu, tem 
mais claro, tem at a Lucilene, que  quase branca... O pessoal nem acredita que so todos filhos do mesmo pai, porque me a gente sempre tem certeza, n? Sai da 
barriga, no tem dvida, mano. A natureza caprichou adoidado na minha famlia.
Mas o Chico, tirando essa besteira de cor, at que era legal. Um amigo. J trabalhava numa oficina mecnica; saa da escola e pegava duro no batente. At me ofereceu 
emprego por l, estavam precisando de outro guri.
Nem contei pra me, seno ela se entusiasmava e l ia eu pra oficina. Meu negcio era outro: o Zelo tinha me prometido grana se eu fizesse um servio.
Ento, um dia, o Zelo apareceu, mais a gangue, e ordenou:
- Amanh te prepara, pivete, que a gente vai fazer um arrasto...  dia dos bacanas irem pra praia, pro shopping, as casas ficam vazias.
- E como a gente vai?
-  longe. Se no tiver carro, a gente vai de buzo......
- buzo? - reclamei. - P, que mixuruca!
- Sossega, que eu dou um jeito.
- E o que eu vou fazer?
- Voc vai de laranja, moleza.
Nem dormi direito aquela noite... Eu ia estrear na gangue do Zelo. Me deu assim um n na garganta, no sei se de medo ou emoo.
L pelas tantas o Zelo passou pelo barraco e me chamou. A me me peitou feio:
- Essa gangue  da pesada, Lenilson, o que eles querem contigo?
- No esquenta, me - eu disse. -  uma pelada no campinho, s isso.
- Olha l, olha l, j no chega a minha cruz? No v me arrumar mais problema...
Deixei a me falando e sa com a gangue. O Zelo parecia eufrico:
- A gente no vai mais de buzo, olha s o que eu arrumei...
A olhei e vi, na frente da maloca, um carro novinho em folha. E, l na direo, estava Nego Mano todo prosa.
- Quando foi, Zelo? - perguntei, querendo saber os detalhes.
- Ontem de tarde. A madame marcou bobeira. Eu ia passando, justo na hora em que ela deixou o motor ligado pra fechar a garagem... No deu nem trabalho.
- Ela no percebeu?
- Perceber, percebeu. Veio at correndo atrs de mim, quando eu j estava entrando no carro...
- ...e ela fez o qu? - Arregalei o olho, no querendo perder nem um lance da histria.
- No teve medo no, a danada. Ainda pediu os documentos dela, que no tinham serventia pra mim. Uma pasta dentro do carro com imposto de renda, essas coisas...

- E da, Zelo?
- Da eu agi na mo grande, n? Apontei pro cano na cintura e falei grosso:
- Cala a boca, tia, seno eu te apago!
- E ela calou?
- A calou, n, nem era besta de continuar... E eu pisei na tbua. Por isso a gente vai motorizado fazer o arrasto.
L fomos ns para o bairro dos bacanas... Imagine se a me soubesse. Ia dizer que eu estava virando moleque perverso; eu at podia imaginar o que ela ia dizer.
E da - e da?
Eu no tinha pai, no tinha nada a perder, estava cheio de raiva, cansado de ser miservel, de no poder comer coisa boa que via l na televiso. E o Zelo disse 
que ia ser uma coisica  toa bancar o laranja; mais fcil que tirar doce de guri.
A gente rodou um bocado, depois parou numa esquina. O Zelo desceu, dizendo:
- Se espalhem por a, sem dar bandeira, que eu vou dar uma geral...
A gente desceu do carro e Nego Mano comprou sorvete pra todo mundo numa padaria, s pra disfarar - ele at pagou. O Zelo j vinha voltando e disse baixo:
- Venham comigo que t no papo.
A gente no total era cinco, no veio a gangue inteira pra no chamar a ateno, e nem ia caber no carro. Cinco j era perigoso, porque a gamb andava de olho em 
carro apinhado, s vezes at mandava parar, pedia documento.
Nego Mano ficou na tocaia, pra avisar em caso de alguma novidade, era especialidade dele. O Rato ficou na direo, com o motor ligado. O Zelo, eu e o Formiga fomos 
indo em direo ao lugar marcado...
A gente rodeou a casa, no tinha cachorro, ou ficava preso no fundo. Tinha grade nas janelas tambm, mas numa janelinha menor, no. Ento o Zelo falou:
-  por a que voc vai se espremer, laranja!
Sempre fui magro, fininho mesmo. Meu apelido na maloca era Lingia. Acho que foi por isso que o Zelo me escolheu pra laranja. E nem  moleza, no. A gente tem 
de se espremer como artista de circo pra passar pelas janelas... s vezes fica at entalado e vem o pnico.
Naquela eu passei fcil, fcil. A casa dava pra uma pracinha, e tudo no maior sossego, os caras viajando, dormindo ou passeando. E ainda por cima os donos da casa 
marcaram bobeira porque deixaram o vitr aberto e a porta da cozinha com a chave na fechadura pelo lado de dentro. Foi s abrir e a gangue entrou numa boa. Zelo 
sorriu:
- Passou na prova, guri!
Ento foi a vez do Formiga. Cada um tinha uma especialidade: como eu disse, Nego Mano vigiava, o Zelo comandava, eu me espremia e o Formiga carregava.
O Formiga era baixo e atarracado, e no tinha cara de nada, sacou? Como  isso? Ora, a cara era meio amassada, porque levou um soco bem no nariz, uma vez que foi 
preso, da o nariz ficou esborrachado feito jogador de boxe. 0 olho dele era de uma cor desbotada, e a boca to pequena que parecia um risco de giz; ento ele no 
tinha cara de nada, p, nem de perfil nem de frente!
Mas o Formiga no brincava em servio, escolheu os melhores bagulhos l da casa: videocassete, aparelho de som, televiso... Ele fez um rol de lavanderia, mano. 
Quando estava tudo empilhado numa boa, o Zelo deu um assobio comprido, o sinal combinado.
A o Rato veio com o carro, que a gente encheu de bagulho. Tinha at garrafa de usque importado: o Zelo abriu e deu pra gente tomar um gole no gargalo mesmo.
Foi uma sopa. De l a gente voltou pra maloca, e descarregamos todo o equipamento no barraco do Nego Mano. Ele morava sozinho e o barraco dele era o esconderijo 
da gangue.
Ento o Zelo passou uma nota pra mim:
- Teu pagamento, cria!
- P! - reclamei no ato. - S isso? Eu estava esperando muito mais! Se no fosse eu, tu no entrava naquela casa, p!
- O garoto tem razo - apoiou o Formiga. - T ficando mo de samambaia,  Zelo.
- Pois vou dar um presente prele muito mais valioso - replicou o Zelo e acendeu aquele cigarro gozado, a eu senti o cheiro adocicado de novo.
- Toma a, pivete, faz a festa!
Eu no era cabeo, nunca tinha fumado um baseado pra valer. Vez ou outra apanhava uma guimba l no cho da maloca, no dava nem pra sentir o gosto; acendia, acabava.
Ento aquele bruxo me acendeu a vontade. Sacom, moo, estava me sentindo muito importante ali, na gangue do Zelo. De ser til pra gangue. Eu pensava: aquilo era 
a melhor coisa que podia ter me acontecido. Fui ficando tonto, leve, parecia que ia voar... Ainda ouvi Nego Mano falar:
- Vai devagar, guri!
Puxei mais umas tragadas e mareei feio; precisaram at me levar pro barraco, ainda meio zonzo, os olhos vermelhos e a voz enrolada... A me quase teve um troo:
- Andou bebendo, menino, o que voc aprontou agora?
Ser que a me imaginava o que estava acontecendo? Mesmo tonto, eu tinha escutado o Rato dizer:
- Esse no tem estrutura pra erva, precisa de cigarrinho com filtro.
E eles riam que riam da minha cara, me deu um dio! Eu ia mostrar pra eles a minha estrutura!
No dia seguinte, passei pelo Zelo, na maloca, nem reconheci a pea: ele precisou me chamar. O Zelo de loiro agora tinha virado moreno, o cabelo tingido de preto. 
S no pde tingir os olhos azuis dele. Mas disse que ia comprar lente de contato de vrias cores pra mudar tambm a cor dos olhos quando precisasse.
Ele tambm tinha passado gel no cabelo, que era crespo e ficou liso. Se ele no chamasse, nunca ia descobrir que era o Zelo.
- Cad o carro?
- Ah, larguei por a, pra gamb achar. J teve a sua serventia. E deixei tambm os documentos da madame e o tal do imposto de renda. No me serviam pra nada mesmo. 
S fiquei com o talo de cheque e a bufunfa.
Ao que o Rato comentou:
- Talo de cheque  fria, a essa altura j est tudo bloqueado l no banco.
- E da? - O Zelo riu. - Voc sabe, eu sei, mas os carinhas no sabem, n?  s arranjar uma piranha pra passar os cheques pros otrios, ou dizer que  cheque da 
mame. Em ltimo caso eu negocio eles l no centro. Cheque especial, mano, mercadoria cobiada, voa pelo pas inteiro.
Os dois caram na risada e o Rato completou:
- E a madame vai dar queixa de um cara loiro... Ento os gambs vo procurar um loiro, n? Tu  um gnio, Zelo!
- Mas e o olho azul? - eu disse e logo me arrependi, porque o Zelo me fuzilou com cara de poucos amigos.
O Zelo tinha me dado uma mixaria pelo assalto. Mas ele prometeu que, na prxima vez, ia ser melhor porque eu tinha passado no teste.
Com a grana, comprei um pote de cola de sapateiro, diziam que era legal. O cara vendeu numa boa, nem perguntou pra que era. Eu tinha at desculpa engatilhada: o 
pai consertava sapato, mas nem precisou, moleza.
Sa e fui dar uma fungada num campinho... Tinha uma gurizada por l, de rua mesmo, era o territrio deles. Perto ficava uma avenida muito movimentada onde vendiam 
doces nos faris, limpavam pra-brisas de carros. Alguns assaltavam as madames que dirigiam sozinhas, de vidro aberto - ameaavam com faca ou gilete, e, apavoradas, 
elas soltavam o milho numa boa.
Eles me convidaram pra ficar com eles. Mas eu contei da me, disse que ia at na escola. Ento eles disseram que, quando cansasse da me, da escola ou dos dois, 
o meu lugar estava garantido.
Dei fungada um tempo at ficar doido, mano. Me ensinaram at o sistema legal de botar a cola num saquinho plstico para o barato ficar mais forte.
Voltei to alto pro barraco que os meus irmos ficaram com medo de mim. Olhavam ressabiados pro meu lado. E a me s falando e falando:
- Que jeito esquisito  esse, menino, parece bebum como o teu pai...
Nem sei como fui na escola no dia seguinte: acordei meio bambo. Mas levei a cola. Durante o recreio, me escondi no banheiro e dei aquela fungada. Veio uma moleza 
to boa, ficou tudo fcil, bonito, at esqueci que morava em maloca fedorenta, num barraco cheio de furo por onde escorria gua de chuva, que a me aparava em panela.
O Zelo disse que eu tinha futuro, tinha passado no teste. Ia progredir na gangue, ser pea importante.
Trabalho foi o que no faltou. O Zelo me ensinou a cartilha inteira: me ps pra trombar no centro velho - cansei de arrancar pulseira e corrente das minas, era 
s ficar de butuca. Deixa eu contar como era.
A gente se posicionava mais ou menos como nas casas. Eu, o Nego Mano, o Rato e o Formiga. O Zelo ficava de fora pra escolher os otrios. Da ele dava um sinal combinado 
e o Nego Mano fingia que empurrava, assim na confuso. Ento a gente dava as trombadas...
No final do dia a gente juntava tudo e levava pra um ourives que mantinha o caldeiro fervendo, aquele tacho onde se derrete ouro. Era s chegar e pimba! Tudo l 
dentro. Limpo, numa boa. E o milho era bom. A gente subia e descia maneiro dos elevadores do prdio dele. A ordem do Zelo era no trombar ningum por ali, pra no 
dar bandeira.
E depois o tal ourives punha as jias bonitinhas na vitrine e cobrava os tufos; e ainda posava de honesto, o sacana.
Trombei muito na feira tambm, levando carteira de madame, e at um carrinho cheio que a me assustou quando cheguei no barraco:
- Que  isso, Lenilson?
- Fiz feira proc, me, t contente?
- Mas comprou at o carrinho, filho?
A me acho que no desconfiava, porque eu dizia que fazia uns bicos l na oficina mecnica onde o Chico trabalhava. S ficou meio cabreira quando dei pra ela, no 
Natal, uma corrente de ouro com medalha, que eu trombei l no centro.
A escola? Ah, eu continuava indo, mas no era bom aluno, no. Faltava muito, dependia se eu tinha de fazer um trabalho com a gangue. Aprendi a ler e a escrever e 
algumas coisas, fui at a quarta srie - depois acabei no indo mais, cansei de escola.

Foi nessa poca que a Lucilene, a minha irm mais velha, comeou a chavecar: um carinha branco e de olho verde. A Lucilene era morena-clara, puxou a cor da me; 
o chaveco parece que ia dar at em casamento.
A Lucilene trouxe o Marcelo pra conhecer a famlia. Acho que ele j sabia que a gente morava em barraco, porque a mana nunca escondeu isso. S no estava preparado 
pro resto...
Quando me viu, perguntou:
-  amigo seu, Lucilene?
- No, ele  meu irmo caula, o Lenilson.
O Marcelo fez uma cara de surpresa, acho que ele pensou: "Entrei de gaiato". Ali cada irmo tinha uma cor, p! E era tudo filho do mesmo pai e da mesma me, por 
isso ficava ainda mais engraado. Mas fiquei curioso tambm: ser que o amor do Marcelo pela Lucilene resistia a tanta mistura de cor? Ia pagar pra ver!
A dona Maria, a vizinha que antes dava o prato de comida pra mim, tambm tinha uma penca de filhos, mas ela era diferente da me, que s casou uma vez. A dona Maria 
teve trs maridos, e os trs sumiram...deixando a filharada pra ela cuidar. Alis, o que tinha de mulher chefe de famlia ali na maloca no estava escrito, mano. 
Os homens se escafediam e deixavam a mulherada responsvel pelos filhos, como desse e viesse. Sacom, numa moleza, faziam e se iam.
s vezes eu penso que mulher, quando se apaixona, fica meio burra; acha que o homem dela, por pior que seja, vai sempre melhorar, mudar de vida. Ou ento que o segundo 
marido ou companheiro vai ser diferente do primeiro e da por diante. Acredita em tudo o que o carinha diz. Pois no ouvi contar que tem umas piradas que querem 
se casar com cara preso por estupro e homicdio de mulheres? Mandam carta se declarando. Acontece at no estrangeiro, quando o sujeito j est no corredor da morte... 
Isso s pode ser um tipo de doena, me diga voc, mano.
No sou machista, no; homem tambm fica meio besta quando se apaixona, j passei por isso. Acho que paixo emburrece todo mundo: a gente s enxerga o que quer. 
 to bom fazer de conta, n? Depois, quando cai na real, sai da frente,  pior que ressaca,  veneno puro.
Mas, voltando ao assunto, o Marcelo era gente fina, no recuou. Ele ficou o maior amigo da gente. E a me, feliz da vida.
S no parecia feliz era comigo. Eu chegava sempre com umas coisas diferentes l no barraco, e ela j no acreditava que eu estivesse trabalhando. At que um dia 
o Chico me parou na rua:
- Veja onde se mete, rapaz! A sua me esteve ontem na mecnica procurando por voc. Onde j se viu dizer que trabalhava l? Me ps na maior sinuca, cara!
- E o que voc disse?
- Enrolei, n, disse que talvez voc trabalhasse em outro lugar, que ela fez confuso. Qual  a sua, Lenilson?
Nesse dia a coroa me encostou na parede, mano. Queria saber direitinho onde eu arrumava a grana e as coisas que eu trazia para o barraco.
Acontece que eu criei coragem e exigi do Zelo minha parte em cada arrasto. Essa histria de ficar me dando uns trocados j era. Se no fosse eu me espremer naqueles 
vitrs, ningum entrava, n? Sem falar em arriscar a pele dentro da casa. E se ficasse preso l dentro? Quem achava a vaca era eu, eles s tomavam o leite.
Ento o Zelo comeou a me dar uns aparelhos de som, umas tevs, umas miudezas pra levar pra me... fora o que eu trombava por a, por minha conta e risco, fiquei 
autnomo, sacou? E no entregava pra gangue, porque no era otrio nem nada. E nunca que o Zelo ia descobrir, eu fazia na moita.
A me nem quis saber, me disse poucas e boas: que eu estava no mau caminho, que filho marginal ela no queria em casa, que se enchesse a pacincia dela me mandava 
pra Febem... da eu ia ver o que era bom pra tosse.
Eu me fiz de santo: "qual , coroa, qual ? Est me estranhando? Trabalhando duro depois da escola, pra receber salrio no fim do ms, ajudar nas despesas; trazendo 
presente, s pensando em melhorar a vida da gente, e recebo isso em troca. Que ingratido, p!".
A me nem a, foi gritando tudo de uma vez s: que eu vivia de olho vermelho e juzo ruim, de tanto dar baforada, que o Chico pensava que ela era trouxa, mas ela 
no era; eu no tinha emprego nenhum, aquilo tudo que aparecia em casa era produto de sacanagem, eu tinha virado marginal, metido com a gangue do Zelo, onde ningum 
prestava, inclusive eu!
A me me encheu a pacincia. 0 pior  que eu estava metido at o pescoo em mutreta. Tinha largado at a escola. 0 tempo todo eu ficava  disposio da gangue, ou 
puxando bagulho: virei mesmo cabeo. E, acostumado com a grana fcil, agora eu era como um cachorro querendo agarrar o prprio rabo, virando em volta, num beco 
sem sada...
Foi quando o Zelo avisou que a gente ia fazer um big arrasto num prdio de bacanas. A gangue se reuniu e bolou um plano pra ningum pr defeito.
O arrasto ia ser no dia primeiro do ano, logo cedinho. Tinha muita gente viajando, e quem estivesse em casa provavelmente estaria dormindo, depois das festanas 
de fim de ano. E a gangue ia agir na mo grande, quer dizer, menos eu, que nunca tinha chegado perto de um cano antes.
O Zelo descolou uma perua maneira, forte na queda e ligeira no asfalto. Estacionamos perto do prdio: uma beleza, devia ter at piscina - esses bacanas moram bem.
Eu, como sempre, era pea fundamental no jogo: me aproximei da guarita do porteiro, com uma caixa de meles nas mos (antes o Zelo j tinha descolado o nome completo 
do morador do ap de cobertura, paquerando a empregada do dono, que, inocente e seduzida pelos olhos azuis do Zelo, deu o servio completo).
O porteiro botou a cabea pra fora da guarita, perguntou o que eu queria.
- Entrega pro doutor fulano de tal! - avisei.
- Est viajando - ele confirmou o que eu estava careca de saber.
Mas a ordem era ficar no blablabl com o porteiro pra ganhar tempo:
- Mas preciso entregar essa encomenda urgente, meu patro  amigo ntimo a do doutor. Vai ficar uma fera comigo se no entregar antes do almoo, t vendo,  fruta 
fina.
O porteiro abriu um pouco mais a porta da guarita, meio irritado:
- Mas eu j disse que no tem ningum no apartamento dele. A famlia toda est viajando...
- Ento fica com a encomenda, meu chapa, entrega quando der, olha, t cheiroso pra burro, e eu posso voltar sossegado e dizer pro meu patro que o presente foi entregue.
O porteiro ainda hesitou, mas achando a minha cara confivel cometeu o erro esperado: saiu da guarita e abriu o porto pra apanhar a caixa...
A foi no ato.
Num relance, j estavam os quatro da gangue atrs de mim, o Zelo apontando o cano pra cabea do porteiro:
- Pra dentro da guarita, cara, e de bico calado, seno te apago aqui mesmo!
Isso foi bem cedo, logo s sete da manh. No tinha viva alma na rua, e o prdio, de to silencioso, at parecia deserto.
- Canta a todos os caras que esto viajando - falou o boss para o porteiro, enquanto a gangue aguardava a ordem de comando. A idia do Zelo era boa: mais fcil 
fazer o arrasto em ap vazio do que arriscar que outro morador chamasse a gamb, enquanto a gente arrombava a porta.
Informao dada, o Rato ficou com o porteiro, e o resto subiu at a cobertura. Da era s ir descendo e carregando... A gente tinha at celular pra se comunicar 
com o Rato.
O Zelo era prtico em abrir porta. No demorou muito, ainda mais com o ap vazio. O cofre, porm, deu mais trabalho. Foi preciso um p-de-cabra de um metro e oitenta, 
mano, uma loucura! Tambm com a espessura do bicho... Aquele cofre prometia! Ningum compra um brinquedo daqueles pra guardar mixaria, concorda?
Quando conseguimos abrir o cofre, nem te conto, foi um colrio para os olhos, uma verdadeira festa!!!
Tinha pilha das verdinhas (quem seria o otrio que guardava tudo isso em casa? Devia ser de caixa dois, sei l, pra no pagar imposto pro governo); relgio de tudo 
que era marca, daqueles que a gente tromba dos bacanas nos faris; e um monte de jia, que eu arregalei os olhos. Aquele cofre, mal comparando, parecia a caverna 
de Ali-Bab.
E a cobertura ainda reservava mais um tesouro: o cara era vidrado em armas, mano, tinha uma coleo completa. At metralhadora AR 15, belezoca de lamber os beios.
A gente fez uma colheita to farta que desistiu de fazer o arrasto no prdio inteiro. S com os dlares do bacana, ia dar pra viver muito tempo numa nice.
Enchemos as sacolas com aquilo tudo e decidimos ir embora... O Zelo avisou o Rato, l na guarita com o porteiro:
- J estamos indo, antes que as andorinhas apaream! (A gamb andava pelos bairros gr-finos, dando umas incertas...)
Foi a que sujou.
Um dos moradores, daqueles que madrugam, desceu pra comprar po na padaria da esquina. O Rato (fiquei sabendo depois) deu sinal para o porteiro abrir o porto. Na 
volta da padaria, o homem estranhou que o outro no tinha cumprimentado nem nada, ainda mais que era dia de Ano-Novo...
Ento, desconfiado, bateu na porta da guarita:
- Tudo bem, seu Z?
Foi a que o Rato marcou bobeira.
Escancarou a porta, j de trs oito na mo, fazendo estrago:
- Pra dentro, de bico calado, seno morre...
Ficaram os trs apertados l na guarita, enquanto a gente descia, sem problema. De certa forma os outros moradores do edifcio deviam agradecer o da cobertura por 
ter tanta coisa boa no tal cofre. Se livraram numa boa. (Acho que os anjos da guarda deles estavam de planto nessa manh; o resto do dia podiam at dormir descansados 
na beira da piscina, lindona, que eu olhei l da janela do ap.)
Acontece que o tal homem que o Rato burramente botara pra dentro da guarita era um juiz aposentado, to certinho que a gente podia acertar o relgio por ele (isso 
eu tambm fiquei sabendo depois).
Ele demorou tanto, que a mulher dele desconfiou e ligou pelo interfone. Vai ver ela tinha visto pela janela o marido voltar da padaria... O seu Z deve ter dado 
alguma desculpa, mas ela era mais desconfiada ainda que o marido. Discou o 190, mano, e disse que o marido era autoridade, entrou no prdio e no subiu, e o porteiro 
estava com uma voz muita estranha e por a.
No demorou nada, vieram trs cambures e a gamb cercou o edifcio, bem na hora em que a gente estava saindo, as sacolas pesadas do arrasto.
A foi uma confuso dos diabos...
Os gambs vieram pra cima da gangue gritando como loucos:
- Larga a arma, larga a arma!
O Rato amarelou, jogou o cano e saiu da guarita de braos pra cima.
O resto da gangue recuou pra dentro do prdio... Ento foi aquela fuzilaria que nem sei quem comeou primeiro.
Eu me escondi no vo da escada e era s tiro pra c e tiro pra l por cima da minha cabea. Eu s pensava: acabou, nunca mais vou ver a coroa.
Nem sei quanto tempo durou aquilo... A gamb atirava, a gangue respondia. E o Zelo berrando:
- Daqui s saio morto!
Mas quem caiu morto foi um gamb que levou um tiro bem na testa! Eu vi, foi Nego Mano quem acertou. Ele tinha uma pontaria medonha.
Os companheiros do morto ento vieram pra cima da gente feito loucos. Nego Mano pulou no vo da escada e botou o cano bem na minha mo:
- Segura o cabrito!
- Pra qu? Nem sei atirar.
- Claro que sabe, acabou de apagar o gamb...
- Ficou louco? Foi voc!
Nego Mano cerrou os dentes:
- Apagou sim. E vai confessar direitinho. Se falar o contrrio, eu  que te apago, entendeu, pivete?
Nem cheguei a responder porque a gamb j estava em cima da gente, enquanto Nego Mano gritava:
- Eu me rendo, no atirem, eu me rendo!
Um deles botou um trs oito na minha cabea, berrando:
- Larga a arma, seu desgraado!
Algemaram Nego Mano ali do meu lado. O Zelo, o Rato e o Formiga foram levados aos tapas pra fora do prdio.
Foi ento que eu percebi, sem sombra de dvida, que tinha me ferrado.
A gamb dividiu a gangue nos cambures e l fomos ns... Eu, o Rato e o Zelo no mesmo carro. O Zelo estava muito ferido, tinha levado um tiro no peito. Jorrava 
sangue dele, o maluco estava na pior. Eu at pensei que a gente fosse direto pro hospital.
Mas o motorista do camburo continuava rodando, rodando, fazendo hora pela cidade, como se fosse um tour pra turista, sacou? E os gambs s olhando o sangue jorrar 
e tudo ficando ensopado... Me deu o maior nojo, mano.
Eu estava gelado por dentro e por fora, sabia que ia entrar na maior fria: a gamb no brincava em servio. Sentia a cara inchando das porradas que eu tinha levado. 
Olhei para o boot importado, agora todo sujo do sangue do Zelo. A pensei: quem mandou no ouvir a me, seu imbecil? Como  que voc sai dessa agora?
Quando a gente finalmente chegou no pronto-socorro de um hospital pblico, j nem adiantava mais: o Zelo estava mais apagado que fogo de pobre. Foi s trabalho 
de tirar ele do camburo, passar l pelo mdico de planto (que j devia estar acostumado com a gamb levando defunto rodado) e seguir pro IML, que por sinal era 
ali do lado mesmo. E ainda ouvi um gamb explicando para o atendente:
- Era o chefe da gangue e reagiu.
Dali a gente foi direto pra delegacia. L j estavam o tal juiz, a mulher dele e o porteiro de testemunhas (foi a que a burrice do Rato veio  tona, puro Z Man).
Quando chegou a minha vez de trocar idias, Nego Mano virou de lado e murmurou entredentes:
- Se liga, pivete! No esquece o que eu falei.
Fiquei entre a cruz e a caldeirinha, como dizia a me: entrar na fria era ruo, mas encarar Nego Mano, nem pensar. Pra me livrar de Nego Mano, eu confessava tudo. 
Por isso, quando o delegado perguntou quem tinha apagado o gamb, declarei em alto e bom som: "Fui eu, doutor!".
- Quantos anos voc tem?
- Sou "de menor", doutor - respondi, engolindo seco.
- A arma estava na mo dele - confirmou um gamb.
- E ele estava sozinho?
- Com o nego a, no vo da escada.
Nego Mano atravessou a conversa:
- Ele  um pivete maluco, doutor. Ainda pedi pra ele no apagar o gamb. Mas ele sempre age na mo grande.
- Cala a boca, quem fala aqui sou eu - interrompeu o delegado. - Voc  maior de idade?
- Ah, sou sim - confirmou Nego Mano. - Mas quem apagou o gamb foi o pivete. Entrou de gaiato.
Mas o delegado desconfiou que fosse treta e insistiu:
- Foi voc mesmo quem atirou no policial?
- Fui eu sim - repeti.
- Voc tem famlia, garoto?
- Tenho, sim, doutor, l na maloca do Cantagalo. Manda avisar a coroa, por favor, ela  gente decente, ganha a grana no duro,  faxineira.
A o delegado me mandou para o juizado de menores e acabei na Febem, mano, como a me dizia. Boca de me  uma coisa! Nego Mano, Rato e o Formiga, que eram "de maior", 
foram para o xilindr, presos em flagrante.
O Zelo, fiquei sabendo depois, enterraram como indigente. Ele no tinha documento; ficou uns dias l na geladeira do IML, mas ningum apareceu pra reclamar o corpo. 
Acho que nem a me dele soube, ou preferiu ficar na dela.
A comeou o pior. Eu nem gosto de falar desse tempo, sabe? Depois est todo mundo careca de saber, d em tudo que  jornal, n?
S vou dizer umas coisas, de leve.
L na Febem, mano, a gente podia ser aluno ou professor. Eu explico. Quando o pivete chega muito verde na unidade, no sabendo das coisas, ele logo acha um professor 
pra trocar idias e aprender a ficar perverso, a fazer arrasto na mo grande, onde conseguir um cano ou uma quadrada de nmero raspado pra no se descobrir a origem 
dela.
L sempre tem especialista de tudo, por exemplo: arrancar cebolo de marca famosa nos faris, quando a privacidade marca bobeira... brao pra fora do carro. Mesmo 
de vidro fechado,  s mostrar o cano ou a quadrada, ainda que seja de brinquedo, que a coisa se resolve, numa nice.
No meu caso, fiquei no meio do caminho. Tinha coisa que eu sabia de cor e coisa que eu ainda no sacava, ento me diplomei com honra e mrito.
O pior mesmo era ficar de tranca, a sensao de ser um bicho na jaula. Ou ento sentado, durante horas, no ptio, um encostado no outro, sem se mexer... uma tortura. 
Se ao menos a gente praticasse algum esporte, fizesse algum trabalho, sei l.
Bobeou, os funas chegavam berrando:
- Na cola!
Era a senha: testa na parede, l vinha a croca, com corrente, pedaos de madeira ou de ferro. Alguns funas, que a gente chamava de ninjas, vestiam touca pra disfarar. 
Outros vinham de cara descoberta mesmo.
Tinha uns com mais humanidade, sempre tem, mas a maioria no queria papo, era s na pauleira. E depois ainda inventavam que a gente  que se espancava pra pr a 
culpa neles - d pra acreditar?
Banho era entrar e sair, nem dava pra se lavar direito. Pouco chuveiro pra muita gente; sabonete era bem de todos, e trocar de roupa, um milagre. Resultado: o pessoal 
vivia com sarna, se coando feito cachorro. E o pior  que passava um pro outro. Eu te pergunto, mano: adiantava alguma coisa, reeducava algum aquela pocilga, que 
a gente at chamava de "unidade espancacional"? S alimentando o dio, virando fera acuada.
Eu sentia falta de dar uma fungada ou puxar um baseado... No era como antigamente, que arrumava a bufunfa e pronto. Mas sempre se d um jeito. Quando conseguia 
uma latinha de cola ou bagulho, a gente dividia, afinal era tudo maluco mesmo.
O negcio era ficar ligado para aproveitar a deixa. s vezes pintava quiaca, e ai daquele que bancasse o gaiato, tipo dedo-duro; era crime sem perdo. Se fosse jurado 
de morte pela maioria, era encomendar a alma que no demorava... A casa levantava, e a virava veneno: vi muito neguinho ser malhado, espetado, at degolado, depois 
queimado, como Judas em sbado de Aleluia. Estremeo de pavor quando me lembro, mano.
Tinha tambm o negcio da solido, cara. Ficava imaginando a coroa, l na maloca, os meus irmos... ganhando mixaria,  verdade, mas com liberdade, podendo ir pra 
onde quisessem. O que eu tinha ganhado com aquela vida de bandido? Acusado de um crime que no cometi, trado pela prpria gangue, fechado ali, no X, como bicho, 
dormindo em jega sem colcho, levando croca de funa e morrendo de medo de ser atacado no escuro.
A gente trocava muita idia l na Febem. O que ia fazer quando ganhasse o mundo...
Sempre fui garanho. Aos treze, eu j tinha comeado a transar. Gastava toda a grana em roupa e boot de grife, para freqentar baile funk, aquele pancado me enlouquecia. 
Engraado que, antigamente, mano, funk era coisa de morro e de periferia, e hoje virou msica de gr-fino, em boate de luxo.
Minha vida, alm da gangue, girava em torno de roupa, baile, mulher e motel. Mas sonhava tambm em encontrar a mina certa, pra transar numa boa, formar at famlia. 
No queria cachorra, queria uma potranca legal, s pra mim.
Mas l na Febem a gente se virava como podia, n? At formava famlia l dentro: pai, me, filhos, por a. Acho que era um jeito de consolo, de fazer de conta que 
no era sozinho no mundo.
Agora que o Zelo tinha se finado, e a gangue estava toda em cana, fiquei meio rfo. E, pra falar a verdade, estava cheio de ser mandado, de bancar o laranja, o 
otrio. Era hora de encarar, sacom? E a primeira coisa que eu precisava era fugir dali.
A coroa, quando soube que eu estava na Febem, foi me visitar, levou um jumbo caprichado. At me deu uns trocados. Meus irmos nem apareceram. A coroa, essa chorou 
pra burro, disse que cansou de dar conselho, sabia que mais dia, menos dia eu entrava em fria, porque de perverso virei marginal, ento eu ia ser a morte dela. J 
no chegava o pai, sempre nos botequins da vida e depois sumido no mundo! Ela se culpava:
- Onde foi que eu errei, meu Deus?
- Chora, no, eu dizia, passando a mo na cabea dela. Os cabelos tinham ficado brancos; de repente ela parecia mais velha. Coitada da me!
A coroa ia sempre l, dia de visita ela no faltava e me dava pena: as pernas cheias de varizes, os olhos inchados de tanto chorar - que  que eu podia fazer? S 
disse, pra servir de consolo, que no era assassino coisa nenhuma, que foi Nego Mano quem apagou o gamb, quando a gente fez o arrasto no prdio... Ela se revoltou:
- Vou na polcia contar a verdade, isso  injustia, no pode ficar assim.
Eu supliquei:
- Pelo amor de Deus, me, isso fica sendo o nosso segredo. Nego Mano tem os vigias dele por toda parte: se eu bancar o gaiato, a sim que voc vai chorar, por presunto 
fresco.
Ela me olhou como se no acreditasse no que ouvia. Eu insisti:
- Posso confiar, me?
Ela s fez que sim com a cabea e foi embora, ombros curvados, como se carregasse o peso do mundo...
Ainda fiquei uns tempos na Febem, me virando como carne no espeto... A gente sempre se vira como pode, n? At consegui um bonde para outra unidade, onde tinha oficina 
de marcenaria. Eu sempre curti madeira, ento aprendi um pouco enquanto estive por l. Era melhor que ficar sentado durante horas naquele maldito ptio.
L tambm tinha um carinha maneiro, um assistente social, levava a gente numa boa. Na conversa, sacom? Perguntando da famlia, dos coroas. Engraado, tudo que eu 
respondia, ele anotava num caderno: que o pai bebia, batia na me, depois foi embora; que eu tinha uma p de irmos, morava em maloca, vivia largado e fugi da escola, 
e por a.
Sempre gostei de trocar idias, ento dei o mapa da mina: queria saber tudo, no queria? Como fui aliciado pela gangue do Zelo, como aprendi a trombar nas praas 
e esquinas, a fazer arrasto em casa e prdio. Minha especialidade era bolso traseiro de coroa e colar de madame: tem de ser muito ligeiro para o coroa no perceber 
ou o pescoo da dona no vir junto.
Um dia... ele at perguntou se eu tinha apagado mesmo o gamb. Ou disse isso por medo ou ameaa de algum. A, mano, engasguei feio. Fiquei gaguejando, porque ele 
pisou no meu calo favorito, n?
- Voc entrou de gaiato, no foi? - disse o cara.
- Isso eu no posso confirmar - respondi.
- O que voc quer para o seu futuro? - ele insistiu.
- No penso no futuro, no. Quero mais  sair pra dar um rol... achar uma potranca legal.
- S isso, Lenilson?
- Ah, no penso no futuro, no.
- Voc j disse isso. O que  o futuro pra voc?
O cara era dez, mas s vezes enchia a pacincia. Queria meter o bedelho na minha vida, p! Quem devia ver a parada era eu, sou uma privacidade, no sou?
- Ah, o futuro, sei l. 0 futuro  uma criana!
Arrumei um mano l nessa unidade, o nome dele era Gibi. Pardo, como a maioria, e pra l de esperto. J tinha entrado e sado uma p de vezes. Fugia, trombava, era 
apanhado pela gamb e vinha de volta... At costumava dizer que tinha sado pra se vingar dos bacanas. E voltava porque sentia saudade.
Claro que era gozao, n, ningum no seu juzo perfeito podia ter saudade da Febem. O Gibi era to pequeno que sempre passava por "de menor", enganava todo mundo. 
A idade verdadeira acho que nem ele mesmo sabia.
Foi o Gibi quem perguntou se eu queria fugir com ele na prxima vez. At assustei com a idia, mas depois, pensando bem, achei legal.
Estava mesmo a fim de mudar de vida. No queria voltar pra maloca. Nem pra coroa nem pros meus irmos. Queria dar um rumo novo na minha vida. Ento o convite do 
Gibi veio na hora certa.
E nem precisava esperar a casa levantar, mano. O Gibi era um gnio, bastava seguir o plano, que ele chamava de "cavalo doido".
Foi assim. Mudou a direo da tal unidade, e o cara que assumiu era maneiro. Resolveu fazer os internos suarem um pouco pra diminuir a agressividade.
Avisou que ia ter um jogo de futebol para os garotos considerados no-perigosos. Talvez o assistente social tivesse falado a meu respeito, sei l: ento eu fui includo 
na lista e o Gibi tambm.
O jogo ia ser no campo interno da unidade. Os funas tinham de vigiar uns trinta internos mais ou menos.
Foi a que entendi o tal do plano...
De repente, no meio do ptio, o Gibi gritou:
- "Cavalo doido"!
Ento, a turma disparou em direo ao muro lateral, cada um para um lado para confundir os funas, e eu, claro, botei sebo nas canelas e fui atrs... Corri como 
se tivesse um pit bull no meu encalo...
Um fez escada pro outro, tipo samba do crioulo doido; a metade conseguiu escapar e ganhar o mundo, enquanto o resto foi apanhado pelos funas. Enquanto a gente 
corria do lado de fora, eu ainda perguntei:
- E os outros, Gibi?
Ele riu:
-  sempre assim, mano. Uns escapam, outros ficam. No prximo "cavalo doido", eles podem ter mais sorte.
Achei boa a explicao. A gente era carne e osso agora. E eu devia a minha liberdade ao Gibi.
- Pra onde tu vai agora, "professor"? - perguntou ele, me chamando pelo apelido l da Febem.
- Estou a fim de formar minha prpria gangue, falou?
- Pois eu topo - disse ele. - Preciso descolar uma grana pra ajudar a coroa, que t doente e no pode mais trabalhar.
- Descolando uns trocados j fico feliz - respondi, meio sem jeito, lembrando da coroa. Nesse ponto, o Gibi era bem melhor do que eu.
O Gibi me peitou:
- S que desse jeito tu no serve pra chefe, mano. Tem de ser mais afoito, querer mais que os outros, s assim merece respeito, sacou?
- Tu tem toda razo, Gibi - concordei no ato. - Deixa eu esquentar o motor, t meio enferrujado. Te prepara que a gente vai fazer um "trabalho" pra valer.
- Na mo grande? Seno, s d pra fazer coisa rala...
O Gibi tinha razo: precisava arrumar um cano para sair na mo grande - como  que ia ser?
Da me deu um estalo, coisa de "professor" mesmo. Foi por etapas, mas vale a pena contar.
Primeiro fiquei na tocaia e trombei uma guria, de corrente de ouro no pescoo: foi de um golpe s, certeiro, quando deu por f, eu j estava longe...
Tambm trombei umas madames com a ajuda do Gibi. Da era pr sebo nas canelas, que dava gosto.
Depois fui vender l no ourives, meu velho conhecido dos tempos da gangue do Zelo. At me perguntou pelo pessoal e disse pra continuar levando a muamba que ele 
comprava tudo. O tacho fervendo no deixava dvida.
Da comprei um cano, trs oito de nmero raspado, por cem reais, a nas quebradas da periferia... Coisa mais fcil, impossvel;  s ter grana.
Tu me acha esperto, mano? Claro que sou. At a professora l da escola dizia isso. Era inteligente mas preguioso, no tinha incentivo.
Imagine s se eu tivesse nascido branco e rico. Porque descobri que branco/rico o pessoal chama de garoto, menino, rapaz; e negro/pardo/pobre chamam de elemento. 
Est duvidando? Voc ainda  daqueles otrios que acreditam em democracia racial aqui no Brasil? Claro que se o cara for negro, mas famoso e rico, melhora bastante, 
n? Mas sabe que eu ouvi outro dia um professor universitrio negro e famoso, que viveu a vida toda no estrangeiro, declarar que ainda tinha receio de entrar num 
restaurante de luxo e ser discriminado?
Se eu tivesse nascido numa casa boa, no naquela maloca fedorenta, se meu pai fosse legal, no aquele bebum que batia na gente e na me, porque de pai s levei porrada, 
at que ele sumiu de vez.
Se eu tivesse um pai de verdade pra me cobrar limites, dizer: "toma rumo, meu filho, pra ter um futuro...", como o cara falou.
A me bem que tentou me pr no caminho certo, ela sempre deu bom conselho. Mas, com a filharada nas costas, trabalhando o dia inteiro, era bem mais difcil do que 
se tivesse a ajuda do pai, n? Afinal ele tambm ps a gente no mundo, no ps? Ou ser que homem pensa que s serve pra fazer o filho e depois a mulher que se vire 
sozinha. Como  que um sujeito desses consegue pr a cabea no travesseiro e dormir... sem saber se os filhos passam fome ou viram bandido.
At bicho se preocupa com a cria.
Voc j viu aqueles filmes que mostram os pssaros levando comida para os filhotes que s fazem esperar, de bico aberto, os pais voltarem? Eu acho o mximo: os pssaros 
voando quilmetros - quando chegam no ninho eles regurgitam o que comeram direto nos bicos dos filhotes, ali se atropelando pra ganhar a melhor parte.
 sempre assim: seja pssaro, seja um baita leo ou tigre, eles sempre levam comida para as crias nos ninhos, nos esconderijos. Vi uma zebra voltando pra recolher 
o filhote que estava atrasado; dizem que ela reconhece a cria pelo tipo de listra, pelo cheiro tambm. Se bicho faz isso, como  que pai ou me abandona um filho?
Quando ouo dizer que algum judia de uma criana, principalmente se  pai ou me, eu viro fera.  uma covardia danada, concorda, mano? Depois levam l pro pronto-socorro, 
inventando histria de que o filho caiu do bero, da escada, se queimou no fogo e por a... s pra engambelar os mdicos - pode uma coisa dessas?
E por falar em criana, eu acho mesmo que o futuro  uma criana, como eu disse l para o assistente social. Toda criana precisa de carinho, mano, de amor, trocar 
idias. Eu no nasci bandido, eu virei bandido. Como a coroa sempre dizia: "pior que pau que nasce torto  pau que vai entortando pela vida...".
Eu fui entortando pela vida, tenho certeza disso. Voc acha que eu gostava de ser menino de rua? Vivendo como cachorro sem dono, jurado de morte? Escondido como 
bicho-do-mato?
Podia ser to diferente...
Eu tenho saudade da coroa, dos meus irmos... s vezes tenho saudade at da maloca. Tinha muita gente boa morando l. O pessoal pensa que, em favela, s tem bandido. 
Pelo contrrio: a maioria  gente fina, trabalhadora; mas vive de ordenado mixuruca, no tem dinheiro pra morar em bairro de bacana.
Tem at gamb que mora em favela, porque tambm ganha uma misria de salrio. Voc sabia que um policial americano, l na Califrnia, alm de ter curso superior, 
ganha uns quatro mil e quinhentos reais por ms, o salrio de um coronel brasileiro?
Eu li uma reportagem sobre isso. E sabe o pior da coisa? O policial americano, quando vai pra rua, j deu uns dois mil tiros, conhece o que faz; o policial brasileiro 
deu quando muito uns duzentos tiros... por falta de munio - d pra comparar? Chega a ser at covardia esses policiais despreparados, com salrio de fome, vivendo 
na favela, vizinhos dos bandidos que eles tm de enfrentar!
S podia mesmo dar em motim de policiais, pelo pas afora, todos armados e encapuzados feito bandidos, deixando o povo  prpria sorte - se os gatos s ficam no 
muro, os ratos saem sossegados das tocas... Eu conheci bem o esquema, mano, pode crer.
 que, no meu caso, no tive muita escolha. Se at menino bacana entorta com pai dando conselho, sempre presente, imagine eu. S que menino bacana quando entorta, 
o pai leva no psiclogo, interna, ou manda para o estrangeiro, onde os gringos do um jeito nele - h sempre uma esperana, sacom?
Comigo foi s na porrada e no xingo. Ento decidi: se o meu destino era ser moleque de rua, pacincia. Ningum vive sem grana, tinha de trombar ou fazer arrasto... 
Me diga a: o que a gente faz, quando no tem mais nada a perder?
De posse de um cano legal, fiquei pensando no que eu ia fazer... Logo bolei um plano.
Sete da noite: hora de bacana voltar pra casa. Tinha muita rvore no bairro chique, a gente ficou perambulando, na penumbra.
No deu outra.
Chegou o bacana e estacionou na frente da manso. A ns corremos e apontei o cano pra ele:
- Bico calado, seno te apago. Abre o porto.
Ele nem chiou. A gamb mesmo no ensina que  pra no reagir, que o bandido est no comando? No fazer gesto brusco, no encarar, s obedecer. Gozado, at facilita 
o servio da gente.
O bacana desceu do carro e foi abrindo... logo a gente estava dentro da casa. Pegamos todos de surpresa, ningum reagiu. Eu tremia, confesso, mais que eles. Agora 
era o boss, uma responsabilidade danada. Mas no podia amarelar bem na frente da gangue.
Tranquei o povo no banheiro, mas antes pedi a chave do cofre, que estava escondido num armrio.
Fiz a festa, mano: jia, grana (que mania que esses caras tm de guardar o milho em casa). O Gibi at arregalou os olhos; dava pra bater baforada e puxar baseado 
por um ms inteiro...
E o melhor de tudo: dentro do cofre tambm tinha uma quadrada novinha em folha, prateada, daquelas de dezesseis tiros seguidos, que custa uma nota preta, e com o 
pente do lado. Nisso a gamb tem razo: quem tem arma em casa, quando assaltado, engrossa arsenal de bandido.
Da ganhamos o mundo no carro do bacana mesmo, na maior moleza, rindo... Foi o arrasto mais suave que eu j fiz. Pra comemorar, resolvi procurar a turma da rua, 
aqueles meus conhecidos do tempo do Zelo.
O destino me esperava. Foi quando eu conheci a Nereide: uma potranca pra l de jeitosa. Fui com a cara dela e montei mira. Ela tambm parou na minha, deu pra perceber.
O Gibi no dava sossego, queria logo dividir a muamba. Ento, pra me livrar do assdio, fiz a partilha. A maior parte para mim, lgico, afinal agora eu era o boss.
A gangue era pequena. Com o tempo eu ia juntar mais pivete; precisava de um laranja como eu tinha sido. Sempre aparece a oportunidade de uma janelinha aberta, n.
Tinha muito que fazer: vender aquelas jias todas pro ourives, procurar um lugar pra ficar - de repente me lembrei do Zelo. Ele logo se desfazia do carro, porque 
a gamb devia estar atrs de ns.
Mas a tentao foi mais forte.
Convidei a Nereide pra dar um rol de carro. Ela topou. E como eu estava cheio da grana, a gente se hospedou num motel e transou gostoso. Grana, mano, digam o que 
disserem, abre todas as portas, ningum faz pergunta.
No dia seguinte, larguei o carro do bacana numa rua deserta e joguei a chave no mato. E fui tratar da vida. Queria uma gangue legal, como fora a gangue do Zelo, 
que Deus o tenha.
Escolhi a dedo um pivete magrinho, o Mico, e a Nereide, lgico. E mais dois guris - eu gostei do jeito deles -, o Quindim, especialista em afanar cebolo, o Carrapato, 
que trombava em buzo e tinha muita experincia. E tambm o Gibi, claro, meu camarada de f.
Para no dar muito na vista, arrumei um barraco feito Nego Mano, numa favela perto do centro. A grana escondi num buraco, dentro de um saco plstico. E o cano enfiei 
no cinto da cala, para o que desse e viesse...
Enquanto eu escapasse da gamb, e no voltasse pra Febem, estava tudo legal.
Agora estou chegando na parte principal, mano, mas antes quero deixar uma coisa bem clara: eu tinha formado a gangue com os pivetes de rua, mas nem todos os pivetes 
de rua so bandidos. A maioria no  marginal, vive at com a famlia, s faz biscates... vendendo coisa, limpando pra-brisas de carros, essas coisas, depois voltam 
pra casa. Muitos at esto na escola. Mais guris que gurias, porque uma parte delas vai ser domstica e a outra cuida dos irmos pra me trabalhar.
Com a gangue formada, a gente comeou a fazer arrasto nos comerciantes... Eu apontava o cano s pra intimidar, nunca apaguei ningum, juro pela minha santa me. 
No tenho alma de assassino, mano. Nem de cachorro eu jamais judiei. E me arrepiava s de pensar que estava sendo procurado por um crime, que o desgraado do Nego 
Mano, depois de apagar um pobre pai de famlia que morreu no cumprimento do dever, ps a culpa em mim.
Voc estranhou o comentrio? Talvez, naquele tempo, eu no pensasse assim; mas agora, depois que a minha vida tomou outro rumo, eu me dei conta da barbaridade que 
 tirar a vida de um ser humano. Eu nunca que ia fazer um troo desses. S se fosse mesmo em legtima defesa, sacou?
Hoje, eu passo longe de cano, tenho at horror. Se eu pudesse, apagava a minha vida at um certo dia, como a gente apaga caderno com borracha... Ia ser bom demais.
No barraco morava eu, a Nereide e o Mico, que s tinha dez anos, era ainda um pivetinho. O Quindim, o Carrapato e o Gibi se viravam por fora.
Foi ento que comeou a acontecer...
Acharam o Dito, um guri de uns doze anos mais ou menos (que s vezes nem o cara sabia a prpria idade), morto da Silva, l perto do lixo, com um tiro certeiro na 
cabea. Em volta do tiro, uma marca engraada, feita a ponta de faca. Parecia at que algum fizera tiro ao alvo com o pivete.
A gamb foi l, saiu em tudo que foi jornal. Mas ficou por isso mesmo. O Dito nem tinha famlia, era um pivete de rua, foi enterrado como indigente, feito o Zelo, 
naquele caixo barato, em cova rasa, em cemitrio de periferia...
Dias depois, todo mundo tinha esquecido o Dito. Ele no fazia falta mesmo pra ningum neste mundo; se duvidasse, nem pra ele mesmo.
Na semana seguinte, sumiu o Tonho. Foi encontrado tambm com um tiro na cabea e a tal marca de faca, rodeando o lugar do tiro.
Com o Tonho j eram dois. Mas o Tonho era tambm pivete e passava uns bagulhos de vez em quando. Ento saiu novamente no jornal, porque jornalista d planto l 
na delegacia, e o que acontece ele conta tudo.
E assim foi indo... como uma roda-gigante macabra: depois do Tonho, foi o Sumar, o Alicate, o Risonho, o Z Treta, a Candanga, o Cafun - todos eles com tiro na 
cabea e a marca feita a faca, em volta do tiro certeiro.
A tudo que era jornal pegou fogo, comeou a dar notcia todo dia. Eu lia e guardava s pra ver no que aquilo ia dar. A televiso tambm mostrava os presuntos, cobertos 
por jornal, o povo em volta, s olhando... nem era mais novidade.
Quando comeou a aparecer presunto toda semana, e at mais, o chefo da gamb teve que se manifestar. E disse para os jornalistas que aquilo era guerra de gangue, 
que o pessoal estava se matando entre eles, por causa de dvida de crack - a pedra maldita tinha aparecido no pedao e deixava todo mundo maluco.
Verdade que tinha neguinho que fumava dez, vinte pedras num dia s, no cachimbo improvisado com pote de iogurte, canudo de refrigerante, o que fosse. Queimava at 
a boca de tanto pipar o tal cachimbo. E, quando batia a nia, tinha de trombar direto pra comprar mais pedra. Mas s vezes, sem grana, comprava fiado...
Tambm tinha os avies que vendiam as pedras e no acertavam depois com os chefes. Ento o traficante ia na casa do neguinho e, s vezes, por causa de dez reais, 
matava o prprio, a me, os irmos, as visitas que tivessem o azar de estar ali, na hora errada. Atiravam at em mulher grvida, em criana, um horror! S pra dar 
o exemplo, sacou?
Mas tinha mais coisa no pedao, no era apenas acerto de traficante, no. E nem era s ali que estava acontecendo, eu li no jornal. Em muitos lugares apareciam presuntos 
de pivetes, com tiros na nuca, testa, peito, e tudo "de menor", com dez, onze, doze anos, uma tremenda de uma sacanagem, mano. E a desculpa era sempre a mesma: guerra 
de gangue por causa de moc de crack.
Um dia, voltando pro barraco, a Nereide veio me encontrar, chorando:
- Apagaram o Mico.
Me deu at um aperto dentro do peito. O Mico tinha s dez anos! Aquele pivete nanico, cabeudo, aparentava ainda menos idade. Era como bicho assustado, sempre com 
fome.
E a Nereide ainda disse que tinham achado o Mico perto do campinho, onde a molecada jogava bola... no meio de um monte de lixo, com um tiro certeiro na testa.
- E tinha tambm a marca da faca? - perguntei.
A Nereide confirmou:
- Igualzinho aos outros.
- E pra onde levaram o corpo?
- L pro IML. O Gibi viu tudo e me contou. Mas voc no t pensando em ir l, n? S se for pirado.
O Mico sempre dizia que a me dele morava em alguma maloca da periferia... Ser que a gamb ia mandar aviso? Mas, mesmo que eu soubesse onde era, no podia chegar 
muito perto, a Nereide tinha razo: fugido da Febem, acusado de crime, nem pensar!
Esses casos que eu contei foram de pivetes que eu sabia nome ou apelido e foram mortos da mesma forma; mas perdi a conta de pivete que foi apagado, mano. Cansei 
de contar.
Era sempre a velha histria, e algo me cheirava esquisito. E resolvi me informar, sacom? 0 Gibi, meu segundo na gangue, era muito rodado por a, conhecia muita 
gente, ouvia muita conversa de p de ouvido, ento pus ele em campo, de ganso...
Eu devia isso pro Mico. Ele no era lixo pra ser descartado desse jeito.
Malandro que  esperto sempre se ajeita, se vira. Fui escutando aqui, recolhendo ali, at soltei uma grana por dedurice, que era mesmo negcio de honra, mano. O 
Gibi, por seu lado, tambm foi trabalhando no caso.
E sempre tem gente que posa de bacana, conta vantagem, declara tudo, inclusive os podres. Tinha acerto de traficante no pedao, claro, como eu j sabia, pra dar 
o exemplo. Mas a histria verdadeira dos pivetes, apagados com tiro na testa e marcados a faca, era bem outra...
O que aconteceu foi que os comerciantes - cansados de serem vtimas de arrasto de gangues - resolveram fazer justia com as prprias mos.
Contrataram um grupo de extermnio pra apagar os guris. Assim, na maior, com salrio no fim do ms, como nas fazendas havia (e deve ter ainda) os jagunos dos coronis.
A ordem era s apagar, mas os caras resolveram mostrar competncia - alm de executar os pivetes, deixavam tambm o recado: tinha justiceiro no pedao, com marca 
registrada e tudo.
A princpio executavam os pivetes mais visados, que os prprios patres apontavam; depois, pegaram gosto pela coisa e resolveram ser os senhores da vida e da morte... 
Escolhiam por conta prpria, ia tudo de cambulhada, como rede de arrasto de peixe - tinha pivete de ficha limpa, da? Mais um, menos um, que diferena fazia? Se 
duvidasse, apagavam at mulher grvida, fazendo o servio completo: a cria e a fbrica.
E, olha mano, tinha at gamb metido nisso, porque em toda parte tem nego torto, n? Que a troco de bufunfa, ou puro sadismo, no tem limite - no viu aquele mdico 
l no estrangeiro, um gringo com cara de santo, que atendia em domiclio e matou umas duzentas velhinhas? Quem ia desconfiar, me diga!
Foi a que a roda do destino virou:
Certa noite, eu voltava pra maloca com a Nereide, quando vi um grupo de justiceiros arrastando trs moleques que eu conhecia de vista.
A luz do poste bateu bem na cara dos homens e eu reconheci todos eles. E, pior que tudo, eles me reconheceram tambm.
Foi como um raio, assim, num instante. Eles avanaram, armas nas mos, mas demos sorte: nessa bendita hora um carro passou de faris acesos. O grupo se escondeu 
atrs de uma rvore e eu e a Nereide samos na disparada. Foi puro milagre a gente escapar com vida.
Nem precisava ler os jornais no dia seguinte: ia ter mais trs presuntos em algum mato por a... marcados a faca e com tiro certeiro na testa.
Nessa mesma noite ca no mundo... S deu tempo de passar no barraco, pegar umas roupas e a grana.
A Nereide, grvida de filho meu, eu despachei, com metade do dinheiro, l na rodoviria, pra casa da av dela, no nordeste. Dava pra ela se virar por um tempo. Se 
ela fosse comigo ia ser muito pior, pois estava jurado de morte, por reconhecer os justiceiros, vizinhos meus l da favela.
Com a outra metade no bolso, comprei a passagem para o lugar mais longe que eu encontrei, onde o Judas perdeu nem foram as botas, foram as meias... Desculpe, mano, 
no estou depreciando esta cidade, mas que isto aqui  um fim de mundo, ah, isso .
Deus me ajudou que a me tinha me obrigado a tirar o documento de identidade na marra, quando eu ainda vivia com ela. Santa me. Pelo menos eu tinha um RG pra tentar 
recomear a vida, sem precisar puxar ficha de bons antecedentes. A ia melar feio.

Durante a viagem eu tive muito tempo pra pensar na vida. Veio-me at um poema na cabea, que eu gostei tanto que at decorei:
Aviso aos excludos:
o tempo da alforria chegou.
Os sonhos no tm limites
- incontveis como gros de areia...
Gostou da palavra "excludo", mano? Mas  justamente assim que eu me sentia, sozinho dentro daquele buzo cortando a noite em direo ao desconhecido... Alis, como 
eu sempre me senti na vida: excludo!
E todos aqueles que foram executados pelos justiceiros eram iguaizinhos a mim... Aquele esquadro da morte, ou o que quer que fosse, no tinha o direito de sair 
apagando os pivetes como se fossem bichos doidos - me dava uma revolta s de pensar na morte deles e, principalmente, no Mico... A morte do Mico eu jamais perdoei!
Eu podia at pedir proteo da gamb, acho que era do meu direito, afinal eu era uma testemunha importante dos assassinatos. Mas quem me garantia? Depois que eu 
reconheci os caras... No adiantava um me proteger e outro querer me executar. Meu destino estava selado e eu s podia mesmo fugir porque sabia demais.
Aquela luz do poste mudou toda a minha vida, mano!
E sabe da maior? Eu s posso agradecer. Foi como uma luz divina, porque foi a partir dali que eu resolvi mudar a minha vida.
Eu aqui falando e voc gravando...  importante pra mim contar tudo isso. Voc decide se quer fazer uma reportagem de jornal ou escrever um livro. Minha histria 
 igual a de tanto pivete; contando a minha vida  como se contasse a de uma multido.

Eu fico olhando pra voc e pensando: a histria desse cara  bem diferente. Vida de garoto bacana como aqueles que eu via saindo das escolas, s vezes at com pai 
ou me esperando no porto, num baita carro, lindeza.
 ou no ? Acertei ou no? Quer ver como eu conto a sua histria direitinho, mano?
Comea que voc nasceu branco. Ajuda, n? Voc sabe que ajuda. Voc era chamado de garoto, menino, jovem... Agora, ns, os escurinhos, somos todos chamados "de menor", 
como se a gente fosse uma multido de miserveis, de prias.
Voc tem pai? Quer dizer, eu tambm tenho, todo mundo tem, ningum nasce de planta. O que eu quero dizer  se voc teve pai por perto, cuidando da famlia, dando 
bom exemplo.
Se o seu pai estava l bonitinho, na hora da xepa, chegando na hora certa em casa, passando a mo na cabea da gurizada, beijando a me; podia brigar de vez em quando, 
mas estava l. Essas coisas simples, rotineiras, mas to importantes pra uma criana. Falem o que quiserem, o que um guri ou guria quer mesmo  pai e me juntos, 
pra dar aquela sensao boa de segurana, dormir um sono de anjo, sem preocupao nenhuma.
Lgico que tem garoto bacana que o pai no vive com a me, so separados; no estou dizendo que basta ser rico pra no ter problema. Corta essa! Mas, mesmo vivendo 
em outra casa, porque geralmente criana fica com a me, no  mesmo?, o pai se preocupa com ele, vem de visita, o garoto sabe que pode contar com ele quando necessrio.
Mas eu no sou besta, fico de olho aberto pra essas coisas: a maioria dos pivetes (l na Febem) era caula como eu, ningum tinha pai por perto, tudo sumido por 
esse mundo de Deus... A famlia (como  que eles dizem mesmo?) desestruturada - acertei, mano?
Eu posso at garantir que o seu coroa era legal. Que colocou voc numa boa escola, onde voc comprava merenda na cantina: refrigerante, sanduche, sorvete... Voltando 
pra casa, comia xepa das boas, com direito at a repetir.
E quando chegava o Natal... fazia um big pedido pro velhinho. Quando amanhecia, encontrava tudo l na rvore. Pacoto bonito, embrulhado em papel dourado ou prateado, 
amarrado com fita vermelha.
Assim  fcil viver, mano, at eu, at eu! Comigo foi sempre no xingo e na porrada, o pai j chegava berrando e batendo... Dizia que assim todo mundo chorava e ia 
dormir, esquecendo a fome e deixando ele em paz.
Sabe o que eu acho agora, depois de pensar muito no assunto? Que a bebida era o refgio dele, a defesa daquela vida miservel que a gente levava. Ele vivia desempregado, 
no dava sorte. Arranjava emprego, o patro ficava na pior, despedia todo mundo, s vezes nem pagava os atrasados, tinha de ir na justia do trabalho reclamar os 
direitos - mas se o cara no tinha dinheiro pra nada, a coisa melava, n.
Da a me foi trabalhar e a coisa melhorou um pouco. Mas no era como na sua casa, no, companheiro. Voc pensa que eu comia carne todo dia? Eu via a cor da carne 
quando muito uma vez por ms, e mesmo assim de segunda.
O resto era o velho arroz/feijo, o mesmo feijo ralo da dona Maria, a vizinha. E fruta? Quando  que eu via cara de fruta? s vezes umas bananas... ou ento se 
eu catava as frutas deixadas no fim da feira.
Eu comia mesmo com os olhos eram os anncios da televiso, me davam gua na boca, eu at sonhava com aquelas gostosuras: iogurte, sorvete, sanduche cheio de andares 
como prdios de apartamentos. Eu daria um dedo por aqueles sanduches!
Usava um boot velho que a patroa da coroa mandava, herdado dos filhos dela, ou ento havaiana de dedo; short ou camiseta puda que a coroa no se cansava de remendar. 
E quantas vezes no dormi, por causa de dor dente; enquanto pivete, eu nunca fui ao dentista, cara!
Coitada da me: o aluguel do barraco era caro pra burro, levava quase todo o salrio dela, no sobrava quase nada. Os salrios dos meninos eram pra xepa e a conta 
de luz, e ainda tinha a conduo de quebra.
A chegava o Natal, mano.
Um dia, eu fui a um shopping ver o Papai Noel, que a galera dizia que era legal. Estava perambulando mesmo, no custava nada.
Fiquei doido com o Papai Noel. Aquelas barbas brancas, a roupa vermelha, o sino na mo. Ele me encarou e perguntou, sorridente:
- Ei, garoto, o que voc quer de Natal?
At perdi a fala. Fiquei fora de mim de tanta emoo. Depois nem sei como, respondi:
- Ah, Papai Noel, eu queria tanto uma bicicleta!
- Uma bicicleta, filho? Voc vai ganhar, espera que o Papai Noel leva pra voc na noite de Natal.
- Mas o senhor sabe onde eu moro? - arregalei os olhos, no querendo acreditar em tanta felicidade.
- Claro que eu sei.  s esperar.
Os sinos cantaram todos na minha cabea: que Papai Noel legal! Eu ia ficar cada minuto a partir dali esperando a noite de Natal. E ainda sa contando pra todo mundo: 
"Vou ganhar uma bicicleta do Papai Noel, ele garantiu".
Na noite de Natal nem dormi, fiquei de vigia, esperando Papai Noel chegar. No tinha chamin l no barraco, como nas histrias, mas que ele viesse pela porta mesmo, 
no fazia mal.
Cansei de esperar.
Quando o dia amanheceu e a coroa foi passar o caf, eu estava chorando, encolhido num canto, a camiseta molhada das lgrimas...
Desde esse dia no acreditei mais em nada.
Descobri que era diferente: escurinho, pobre, morava em maloca, no tinha bicicleta nenhuma no Natal. As bicicletas, os brinquedos das vitrines do shopping eram 
para os meninos bacanas que moravam em casas bonitas, iam pra escola de barriga cheia.
Por isso cresci revoltado, sacou? Por que eu no era como os outros garotos? Que  que eles tinham melhor do que eu? No era tudo gente, e gente no devia ser igual?
Ento, quando comearam a apagar os pivetes - e muitos nem tinham feito trombada ou arrasto, se viravam por a fazendo biscates, aproveitando o calor das bocas 
de lavanderia dos hotis de luxo, quando fazia frio -, me deu aquela raiva, aquele horror!
Ainda mais quando vi a cara dos justiceiros... Devia ter um monte igual a eles. Em cada bairro de periferia, em cada cidade, organizados pra matar pivete, tipo esquadro 
da morte.
Voc est dizendo que at os gringos sabem disso? Que volta e meia mandam gente daquela organizao... - como  mesmo? - dos Direitos Humanos para falar com o presidente? 
Os gringos devem achar isso a maior loucura, t certo? Essa execuo de guri.

E como pivete  o que no falta... J imaginou se eles resolverem apagar todos eles? Como  que fica?
Penso nisso demais... mesmo depois de todo o tempo que vivi aqui, nesta cidade.
Acho que, em vez de acabar com a misria, preferem acabar com os miserveis - como se algum tivesse uma ferida no dedo, ento, em vez de tomar remdio pra curar 
a ferida, cortasse o dedo fora com a navalha.
Se isso pega, vai ter de recolher pivete de caminho, como se fosse lixo mesmo, porque vai ter muito que matar...
E o pior, mano,  que tem gente que pensa assim:  pivete, no faz falta. Agora se fosse filho deles, irmos deles, iam pensar diferente, no iam?
De vez em quando me d um desnimo... mesmo tendo achado rumo na vida, a luz no fim do tnel. Por isso  to importante a gente fazer esta entrevista, trocar idias, 
porque do jeito que a coisa est, no d mais pra ficar. Essa pivetada toda por a no  bicho. E, pra falar a verdade, tem muito bicho mais bem tratado que eles.
Durante aquela viagem de buzo, que durou a noite inteira, eu tive muito tempo pra pensar na minha vida. Do jeito que eu ia, se escapasse de ser executado por justiceiro, 
ia me meter em encrenca grossa e acabava morto de qualquer jeito.
E a Nereide? E o meu filho na barriga dela? Ia nascer por a, em alguma maternidade que atende mulher pobre, mas depois, com certeza, ela se mandava pra rua de novo 
com o beb - isso se no desse o filho recm-nascido pra algum cuidar, como acontece tantas vezes.
E continuava a mesma histria de antes: criado na rua, pronto pra virar pivete. Eu reclamava tanto do meu pai, mas o que eu estava fazendo com o meu filho era muito 
pior: ele estava sendo abandonado mesmo antes de nascer, e nem ia conhecer o pai.
Acho que  isso a o que o cara me perguntou l na Febem: "O que  o futuro pra voc, Lenilson?". A crianada criada na rua tambm vai ter filho, neto... vai precisar 
de muito justiceiro pra executar todos eles.
L no buzo, varando a estrada no meio da noite, sem saber aonde eu ia parar, eu me senti sozinho como nunca estive antes. Uma solido que doeu na carne, mano.
Eu tinha escapado de tanta coisa, de certa forma eu era um vencedor!
Tinha uns carinhas que tomavam baque na veia, sacom, a branca, a farinha. Escapei por pura covardia, desde moleque tenho pavor de injeo.
Quando a coroa me levava no posto, precisavam uns cinco pra me segurar enquanto um aplicava a vacina ou remdio. Era um berreiro to grande que chamava a ateno.
Quando a gangue se reunia, e eu via a tal da seringa com a baita agulha passando de brao em brao... com aquela pasta sangrenta dentro, eu amarelava; fugia como 
burro solto no pasto. Isso me salvou!
No af do baque, no desespero da droga, eles nem trocavam seringa, nem nada; quando muito lavavam mal e mal. Mas, para pegar a veia, mano, saa sangue de cada um, 
que ia misturando com o sangue dos outros. Ento, o ltimo a tomar o baque tomava tambm um coquetel do sangue da gangue inteira - se um tivesse o tal vrus da Aids 
(s pra falar no pior), num instante a gangue inteira estava contaminada.
E o crack, ento, aquela pedra maldita? Pipava uma semana, no mximo, um ms, ficava viciado. Tudo na "nia", pensando na prxima pedra. Por ela, faziam qualquer 
coisa: roubavam, matavam... E, de tanto pipar, a gurizada fazia umas feridas feias na boca, por causa das queimaduras. Se tambm usassem o cachimbo dos colegas, 
corriam o mesmo risco de pegar Aids, hepatite, como quem tomava o baque na veia. Eu at ouvi dizer que estavam pensando em distribuir umas camisinhas de cachimbo 
pra quem fosse dependente da pedra - j pensou?
Morreu tudo por a, fiquei sabendo, principalmente de problemas de pulmo e de corao, alguns at se suicidaram. Me deu uma pena! E um calafrio tambm, podia ser 
eu, o que me salvou foi o medo.
S fiquei puxando bagulho ou dando fungada, que a pivetada faz de tudo, cheira at acetona e esmalte da me, cara.
No estou posando de heri, nem me justificando, podia ser at pior. Pra ser sincero, eu s vezes sinto saudade do pai...
Coitado, ele no era ruim, era doente. Tambm precisava de ajuda e no teve - se escondeu nos botequins da vida, se enchendo de manguaa, por desespero, medo, tudo 
junto, sei l. Ento, quando no agentou mais, sumiu por a...
Naquela noite em que passei dentro do buzo, cara, de tanto desespero e solido, lembrei quando eu era pequeno e a me dizia:
- Fala com Deus, Lenilson, ele  o nosso Pai!
Eu levava a coroa na gozao: "Que Pai, coisa nenhuma! Se Deus fosse Pai mesmo, no deixava acontecer tanta coisa ruim no mundo, p! Gente passando fome, morando 
debaixo de viaduto, criana que j nasce doente, guerra, ganncia, explorao. Onde estava Deus nessas horas?".
Mas ali estava eu, to rfo de tudo, perdido, miservel, fugido de jura de morte. Ento achei que tinha chegado a hora de levar um lero bravo com Deus! Fosse Ele 
um Deus barbudo e cruel, ou um Deus maneiro, to jovem quanto eu, por que no? Podia ser at que Deus fosse uma coroa feito a me, sofrida e cansada. Era at um 
consolo pensar em Deus feito Me.
Peitei Deus, mano!
Falei principalmente do pai. Voc j percebeu, o pai  a espinha engasgada na minha garganta. Por que, Deus podia dizer, eu no tinha nascido em casa mais legal, 
com pai que desse exemplo?
Por que era pivete de rua, perseguido pela gamb, com crime nas costas que nunca cometi? Se ele era Pai, p (ou Me, melhor ainda), devia estar careca de saber que 
eu era inocente. E Ele/Ela fazia o qu?
Falei um tempo com Deus, desabafei mesmo. Tempo  o que me sobrava. E queria que Ele/Ela falasse comigo, voc acha estranho?  isso mesmo, eu pedi, eu exigi que 
falasse comigo. Me desse uma luz! Se existia mesmo um Deus, estava na hora certa de se manifestar.
Deus ficou em silncio, um silncio que doeu dentro de mim.
Ento, de repente, eu olhei pra fora da janela do buzo e percebi que j estava amanhecendo... O cu virava uma colcha de retalhos colorida, enquanto o sol surgia, 
majestoso, l no horizonte.
Era um espetculo lindo, mas to lindo, que eu fiquei deslumbrado, mano, s olhando aquelas cores divinas se espraiando pelo cu...
Me deu um troo por dentro, como se tambm uma luz acendesse dentro de mim! E eu pensei: " isso, cara, se depois de cada noite vem o dia voc pode fazer a mesma 
coisa com a sua vida; se antes era noite, agora  dia".
Foi a que eu jurei pra mim mesmo que ia ser um novo Lenilson. Chegava de s reclamar da sorte, de ter um pai irresponsvel. Agora era a minha vez, porque eu tambm 
ia ser pai. E queria mostrar para o meu filho que ele podia contar comigo em qualquer situao, porque eu decidi, naquele momento, me transformar num cara do bem.
- Falando sozinho, meu filho? - sussurrou repentinamente algum no meu ouvido.
- Ahn, o qu...? - At assustei. Ao meu lado, um senhor de idade me olhava, sorridente:
- Bom-dia, rapaz, desculpe interromper seus pensamentos. Mas pra que cidade voc vai?
- A ltima parada do nibus - respondi, ainda meio atrapalhado.
- Puxa, que coincidncia,  a minha cidade. Voc tem parentes por l? Engraado, no me lembro de voc... em cidade pequena, todo mundo se conhece - despejou o homem, 
de uma vez s.
- No, eu sou da capital, estou de mudana, me disseram que a sua cidade era legal, resolvi dar um giro pra conferir - menti.
- Sei - ele me olhou curioso. - Cidade grande  perigosa, no ? Eu tambm estou vindo de l. Fui comprar material pra minha oficina.  Mas ando morrendo de medo 
pelas ruas, sabe como , aqueles trombadinhas... Um velho como eu tem de tomar cuidado.

- Nem diga - concordei, envergonhado. Ento era isso o que eu fizera at aquele momento: trombar mulher, velho... Eu era uma "maravilha" mesmo, devia at ganhar 
medalha pela minha covardia.
Se o homem soubesse quem estava ao lado dele, era capaz de ter um ataque!
Mas ele gostava de conversar, e, de certa forma, foi um alvio pra passar aquelas horas que no terminavam nunca.
- Voc ento nem tem parentes na cidade? - ele insistiu, sempre curioso.
- Ningum.
- Ento j arrumou emprego e vai assumir a vaga?
- Negativo.
O velho arregalou os olhos:
- Vai chegar assim, de mos abanando, numa cidade estranha, sem parentes nem nada, nem emprego, filho? E do que, desculpe a intromisso, voc vai viver?
- Vou arrumar um emprego - eu falei, sem pensar, e ao mesmo tempo assustei com a resposta. Que emprego, meu? 0 que eu sabia fazer, alm de trombar pedestre e fazer 
arrasto em casa e apartamento?
Parece at que o homem leu os meus pensamentos, porque perguntou:
- E qual  a sua profisso?
Pensei, antes de responder: velho xereta. Eu no tinha obrigao de dar conta da minha vida pra ningum; pegara o buzo pra ir o mais longe possvel justamente pra 
me livrar de pergunta. Mas ele era morador antigo da cidade, que eu agora sabia era pequena. Se ficasse na dvida, a mesmo que no ia encontrar emprego nenhum.
- Sabe como , cidade grande, a gente faz um pouco de tudo. Eu tinha um barzinho pra vender uns lanches, bebidas, mas abriram uma big lanchonete bem do lado, no 
agentei a competio. Depois a minha garota foi embora pro nordeste, morar com a famlia. Ento desisti de tudo e resolvi vir para o interior ver se tenho mais 
sorte.
- Fez bem, meu filho, fez bem. Voc  jovem, tem futuro. Alm de ser dono de bar, o que voc sabe fazer?
- Eu sei lidar com madeira, fui aprendiz de marceneiro - dessa vez, falei a verdade.
O velho abriu um sorriso:
- Mais outra coincidncia, meu filho! Eu sou marceneiro, tenho uma oficina.
- Ah, ? O que o senhor faz, mveis?
Ele continuava sorrindo, e, engraado, era daquelas pessoas que sorriam tambm com os olhos.
- No; eu sou um luthier...
- No tenho a menor idia do que seja isso...
- Luthier  quem faz instrumentos musicais.
- Como? - estranhei.
- Violo, viola, cavaquinho, bandolim... eu j fiz at violino, sabia? - explicou ele. - Tudo por encomenda, artesanato puro, na realidade uma arte chamada de lutheria. 
Tenho o maior orgulho do meu trabalho. Sabe que at artistas famosos tocam os instrumentos que eu fao?
- Nossa, que beleza! Eu nem fazia idia... Pensei que os instrumentos fossem feitos em fbricas...
O velho fez um muxoxo de desdm:
- Claro, h fbricas que fazem instrumentos como carros, em srie; mas um instrumento musical feito  mo, talhado com carinho... ah, meu filho, esse tem alma, pode 
crer!
- E o senhor aprendeu com quem?
- Com meu falecido pai, que, por sua vez, aprendeu com o pai dele, l na Itlia. Somos uma raa em extino, por isso recebo encomenda do pas inteiro.
Eu estava cada vez mais interessado na coisa. E o homem devia gostar muito de ser luthier, porque, quando falava, os olhos dele brilhavam de pura emoo.
- Deve ser legal pegar um pedao de madeira bruta e transformar essa madeira num violo, por exemplo. Que trabalho bonito o seu - comentei, curioso.
- Nem diga, meu filho, nem diga! Pena que nenhum dos meus filhos quis seguir a mesma profisso. Saram todos da cidade, foram estudar em faculdades. Sabe que eu 
tenho filho mdico, filha advogada e o caula  piloto de avio? O que eu sinto mesmo  que essa arte, depois de tantas geraes, vai morrer comigo...
- ...mas o senhor poderia ensinar pra outra pessoa - interrompi. - Um aprendiz que tambm gostasse de madeira, sentisse amor pelos instrumentos.
- Quem, meu filho, quem? E voc pensa que eu j no procurei? A juventude s quer ir pra cidade grande estudar e depois ganhar dinheiro. Quando chegar  cidade ver 
que a maioria dos moradores  gente idosa ou ento crianas.  s crescer que vo todos embora.
Foi a que me bateu uma inspirao, sei l, mano, e falei quase sem pensar:
- Pois eu fiz o contrrio, vim atrs de sossego e de fincar raiz num lugar pacato. Se o senhor me aceitar, eu posso ser esse aprendiz.
- Ser? - Ele duvidou.
- Pode acreditar. Se me der essa oportunidade, prometo que no vai se arrepender.
Ele me olhou fundo nos olhos. Depois falou:
- Pense melhor no assunto. Amanh voc me procura. Meu nome  Giuseppi; cidade pequena, todo mundo sabe onde eu moro.
Foi assim, mano, que a minha vida mudou, da noite para o dia.
Desci do buzo, acenei para o seu Giuseppi, e fui procurar a penso que ele me indicou. A dona era viva, a casa humilde, mas muito limpa, e ela servia refeies.
Por sorte ainda me sobrara alguma grana. Eu s trouxera uma maleta com roupas, mas no precisava mais que isso. A gente vive com pouco, mano, basta uns objetos de 
higiene, cama pra dormir com roupa limpa e travesseiro decente. Alm da comida, claro. E vontade de ir  luta.
No dia seguinte, me informei na farmcia (onde se sabe de tudo em cidades do interior) e fui at a oficina do luthier.
O cheiro de madeira me acolheu como velho conhecido. Havia instrumentos musicais espalhados por todo o lugar; alguns apenas comeados, outros j com o verniz secando, 
uma curtio.
Foi amor  primeira vista, mano. Amei aquilo de paixo! Faz quase quatro anos que eu vivo aqui. Aprendi os rudimentos da lutheria, mas tenho ainda muito a aprender; 
 uma arte feita de pacincia, de dedicao. Eu diria que chega a ser uma forma de amor.  como fazer uma coisa viva, mano - quando a gente encordoa o instrumento, 
e algum finalmente extrai msica dele, d uma big emoo!
Continuo morando na penso, mas s vezes filo a bia da mulher do patro, gente finssima. Os filhos tambm so gente boa, quando aparecem de visita me tratam com 
respeito e carinho. De certa forma  como se eu tivesse ganhado uma nova famlia.
s vezes eu ligo pra coroa, s pra ela saber que eu estou vivo e bem, mas no dou endereo nem nada, por precauo. Como tenho salrio e gasto certo, sempre mando 
uma grana pra ajudar nas despesas. Meu sonho  um dia tirar a me do batente, coitada.
Da Nereide no tive notcia, mas no foi por falta de tentar, mano. Mas  difcil, porque no tenho referncia nenhuma, nem endereo ela deixou. Ento no posso 
escrever carta ou mandar telegrama. Podia telefonar que seria at mais seguro - mas pra onde?
Meu filho, se nasceu, est agora com uns trs anos: j deve estar correndo por a, falando quase tudo. Ser que ele aprendeu a dizer "papai"?
s vezes eu sonho que estou chegando em casa, e a Nereide vem correndo, com nosso filho nos braos, pra me receber... Acordo molhado de suor, e at choro, no tenho 
vergonha de dizer.
Algum dia eu vou encontrar a Nereide. Ser que ela ainda espera por mim? S desejo que ela no tenha me esquecido ou, muito pior, esteja vivendo com outra pessoa, 
a quem o meu filho vai chamar de pai.
Enquanto isso vou tocando a vida... Por influncia do seu Giuseppi, que  um homem muito bom, eu at voltei a estudar, no curso noturno. Quero dominar bem as letras 
para escrever uma carta bem bonita para a Nereide e o meu filho.
A gente se conheceu por acaso, no foi?
Voc apareceu na oficina, vindo l da capital, com um amigo msico, que foi encomendar um instrumento. Acabou ficando amigo, contando que era jornalista e estava 
fazendo uma reportagem sobre garotos de rua e internos da Febem. E se ligou tanto no assunto que pensava at em escrever um livro...
Foi a que me deu o estalo: se eu contasse a minha vida pra voc, alm de dar o meu recado, quem sabe tambm era uma forma de encontrar a Nereide mais o guri. Ela 
podia ler, sei l, e, mesmo com o nome trocado, claro que ia descobrir que era eu - pelo menos tambm ficava sabendo que ainda estou vivo e bem, e que o nosso filho 
tem um pai que jamais se esqueceu dele.
Quanto ao meu patro, no tem problema. Faz tempo que eu me abri com ele. No fazia sentido enganar um homem que eu considero o meu segundo pai.
O mais curioso foi que, depois de ouvir a minha histria, ele apenas sorriu e disse:
- Eu j desconfiava disso tudo, Lenilson. Mas toda pessoa merece uma nova chance. Eu apostei em voc e no me arrependo.
Antes que eu me esquea, mano, conto com o seu silncio:  questo de vida ou morte. Depois, como voc mesmo falou, jornalista que se preza no entrega a fonte da 
notcia, no  mesmo?
Ento nada de foto, e Lenilson fica sendo o meu nome artstico. Como eu disse, no nasci bandido, virei bandido. Mas, agora, deixei de ser um excludo da sorte. 
Eu fao o meu destino: sou Lenilson, o luthier. Um cara do bem.
Nisso eu fecho questo e no abro.

Bibliografia de apoio ao texto
      Reportagens/Entrevistas da Folha de S. Paulo: 
Represso amplia limites da cracolndia. 11 abr. 1999. Caderno So Paulo - 3 - 8 - 9. 
Educador responsabiliza pais e escolas por delinqncia. 10 maio 1999. Caderno Brasil - 1- 12. 
Quase um milho sem escola e sem trabalho. 24 jan. 2000. Folhateen. Capa - 3. 
Morte violenta persegue usurio de crack. 30 maio 2000. Cotidiano. C - 6. 
Febem  a que mais desrespeita o estatuto. 11 jul. 2000. Cotidiano. C - 8. 
FEBEM - 17 adolescentes pulam o muro e escapam do complexo do Tatuap. 29 dez. 2000. Cotidiano. C - 7. 
LG abandona o trfico e "recria o mundo". 14 jan. 2001. Cotidiano. C - 11. 
Furaco 2001 - Funk carioca desce o morro e invade SP. 9 fev. 2001. Folha Ilustrada. E - 1.
Tendncias/Debates: Outra Chance - Hlio Mattar. 1 jul. 2001. Opinio - A - 3. 
      
      Reportagens em revistas: 
      Especial: Somos todos refns, p. 86 - 93. Veja. 7 fev. 2001. 
      Gravidez - Precoce e Desejada, p. 72-73. Isto . 17 jan. 2001. 
NASCIMENTO, Gilberto. Infncia - Misria Itinerante. Isto . 18 jul. 2001.
     Grias utilizadas no texto
      Agir na mo grande assaltar com arma de fogo 
      Amarelar acovardar-se 
      Apagar matar 
      Arrasto furto ou roubo 
      Avio pequeno traficante 
      Barato sensao de prazer aps o uso de drogas 
      Baseado/bagulho/bruxo/fumo/erva cigarro de maconha 
      Big grande
      Bonde transferncia de unidade da Febem 
      Boot tnis de grife 
      Boss chefe
      Branca/farinha/p cocana 
      Buzo nibus
      Cabeo usurio de maconha
      Cabrito revlver colocado na mo do menor para inculp-lo pelo crime de um maior de idade
      Cachorra garota liberada que s se relaciona com funkeiros, ficando com mais de um de cada vez 
      Cano revlver
      Cavalo doido corrida desabalada e repentina pelo ptio, para confundir os monitores, enquanto os internos pulam o muro de uma unidade da Febem
      Cebolo relgio de pulso 
      Chavecar namorar
      Chaveco namoro
      Cola encostar a testa na parede antes do espancamento 
      Coroa pai ou me 
      Croca/coro espancamento 
      Dar uma baforada fumar maconha 
      Dar uma fungada cheirar cola ou outro inalante qualquer 
      Dar um rol circular, passear
      Elemento jargo policial para denominar um suspeito de crime 
      Encarar enfrentar
      Funas funcionrios/monitores da Febem
      Funk msica com batidas pulsantes e letras erticas. Sada dos morros cariocas e da periferia paulistana, conquista as boates da moda, atraindo jovens da classe 
mdia e alta 
      Gaiato/Z Man idiota, otrio 
      Gamb polcia, policial 
      Gangue quadrilha de jovens 
      Ganso informante 
      Garanho namorador, promscuo 
      Grana/milho/bufunfa/cascalho dinheiro 
      Gringo estrangeiro 
      Guimba toco de cigarro 
      Jega cama 
      Jumbo coisas levadas pela famlia aos internos da Febem 
      Laranja pivete que entra pelos basculantes ou vai de entregador, facilitando a ao da gangue 
      Levantar a casa rebelio 
      Maloca favela 
      Manguaa pinga, cachaa 
      Mano irmo, companheiro 
      Mina garota 
      Moc lugar onde se renem dependentes de drogas para consumi-las 
      Montar mira cantar, seduzir 
      Mundo lado de fora do muro da Febem 
      Mutreta ato ilcito 
      Nia reao do organismo ao crack; um tipo de parania, aliada  grande ansiedade por mais pedras 
      Pancado batida do funk, pulsante e "irada" 
      Parar na minha retribuir a cantada 
      Perambular andar sem destino 
      Perverso escolado 
      Pipar fumar crack em cachimbos improvisados 
      Piranha menina promscua ou oportunista, que faz qualquer coisa por dinheiro e fama 
      Pivete moleque de rua 
      Privacidade pessoa 
      Potranca garota gostosa, popozuda 
      Quadrada pistola 380 ou 9mm 
      Quiaca confuso 
      Tomar um baque aplicar cocana na veia 
      Tranca ficar preso na cela o dia todo 
      Trs oito revlver calibre 38 
      Treta enganao, malandragem, mentira 
      Trocar idias conversar, dialogar 
      Trombada assalto contra pedestres 
      Veneno situao ruim 
      Verdinhas dlares 
      X ou Barraco cela
      Xepa comida servida em quartel e reformatrios
       
       
      Tchekhov, o grande escritor russo, quando um jovem autor lhe perguntou sobre o que deveria escrever, respondeu: "Canta tua aldeia que cantaro o mundo...".
      A televiso s foi implantada no Brasil, em 1950, quando eu tinha 12 anos. A distrao era o rdio, e o esporte nacional, olhar pela janela, no apenas para 
"ver a banda passar", como na msica de Chico Buarque, mas para "ver a vida"... Baixinha, eu precisava de um suporte de madeira para alcanar o peitoril da janela. 
E l ficava durante horas, olhando o mundo... Pela vida afora continuei "olheira", a "menina pasmada", como diziam meus familiares. Com o tempo, descobri que isso 
 uma das caractersticas de um escritor ou criador. 
      Criador  aquele que cria, melhor dizendo, recria a vida. E qual melhor forma (alm de ler compulsivamente para entender como outros criadores fazem isso tambm) 
de se tornar um escritor, seno observando a vida (e escrevendo para formar um estilo prprio e original) em tempo integral? 
      Lenilson  um das centenas ou milhares de garotos excludos pela sorte que podem ser vistos em qualquer farol, de qualquer rua, de qualquer bairro de So Paulo 
- esta cidade  minha "aldeia"! Eu precisei de 80 pginas para descrever minha aldeia. Mas um grande poeta, Carlos Drummond de Andrade, usou apenas 5 versos:
       "Sorrimos para as mulheres bojudas que passam como cargueiros adernando,
       sorrimos sem interesse, porque a prenhez as circunda.
       E levamos bales s crianas que afinal se revelam,
       vemo-las criar folhas e temos cuidados especiais com sua segurana,
       porque a rua  mortal e a seara no amadureceu".
       (Ciclo, Antologia Potica, Edies Sabi, 7. ed., 1962, Rio de Janeiro, RJ)
      
     

















 Sobre o ilustrador
      Rogrio Soud ganhou o XIX Prmio Abril de Jornalismo, em 1993, de melhor desenho na categoria quadrinho. Em 1998, recebeu a Meno Altamente Recomendvel da 
Fundao Nacional do Livro Infantil e Juvenil.
      
      


 
